Começo por sentir uns pequenos telintares na palma esquerda da minha mão a subir lentamente pelo meu antebraço. Abro o meu olho lentamente no escuro, enquanto me destapo, de forma desajeitada, cada camada de lençol da minha cama. Enquanto o peso de um dos olhos foi vencido com esforço, o outro abriu-se de forma mais desprovida e sem medos. Recosto-me na minha parede da cama, tapando a minhas pernas para que o frio não me criasse resistência à minha saída do meu recanto, aquecido por todas as camadas grossas de tecidos colocadas estrategicamente para que todo o frio se dissipasse.
Apesar de o relógio bater as 5 horas da manhã de um sábado, o meu coração cavalgava a passo largo dentro de mim. A ansiedade de mais um dia começar era grande, mas a vontade de vencer era e o medo de falhar era o que prevalecia dentro de mim
Á velocidade que o coração ia disparado, o sangue propagou-se rapidamente para cada pedaço do meu corpo. Lentamente, aquela dormência que sentia esfumaçava-se.
- Bom dia braço! – gritou a minha mente.
Apesar de o meu corpo ter-se involuntariamente cortado a minha ligação do sangue com o resto braço, fez com que a vontade de dormir mais quatro horas ficasse adiada para o dia seguinte. Digamos que me pareceu uma boa desculpa para não voltar a ter que sonhar com o que não desejava.
Sendo 10m2 um espaço pequeno para um rapaz com uma altura considerável, havia espaço para guardar todo o tipo pequenas “linhas de pensamento” que o tempo esculpiu. Eram curtas essas linhas na verdade, mas eram intensas e carregadas de sentimentos.
Acendo aquela pequena luz que pende por cima da mesa-de-cabeceira e à volta vejo tudo ainda desvanecido. Esfrego-o os olhos e tento novamente repassar o olhar por todos os cantos. É difícil não parar naquela foto de quando tinha 14 anos e não me lembrar da minha inocente infância. É óbvio que há sempre aquela tímida lágrima que fica no canto do olho sempre que viajo para aqueles tempos em que nós os três éramos como unha e carne, livres de qualquer responsabilidade, mas comprometidos com uma amizade tola e quase sem limites. Vinte e três fotos são o total que um pladur branco consegue suportar de linhas e de momentos diferentes dos tempos em que o tempo era espremido até um ralhete da minha mãe soltar-se. O verão era curto para todos os planos feitos, onde eram previamente planeados e repensados para que todos coubéssemos em cada um deles, mesmo que o tempo fosse reduzido a 5 minutos. Esse tempo por vezes era colmatado por horas de mensagens racionalizadas ao limite, de viagens pela internet restringidas aos períodos e por minutos de chamadas feitas pelo telefone para que no dia seguinte fosse possível repetir a dose.
Ainda hoje é difícil escolher aquele lugar como predileto, mas sem dúvida que ainda hoje, passados doze anos, só um lugar se manteve imaculado pelo tempo. Mesmo tudo ter ruído, lá estava aquele muro de pedra que teimamos sempre em ir de bicicleta.
O gosto por animais era sem dúvida notório, até porque nenhum de nós tinha um, mas aquele cavalo branco que pastava sol sobre sol era o nosso predileto e protegido. Pousávamos desajeitadamente as bicicletas no chão, o tempo rugia.
- CUIDADO COM ELE – gritou António, precavendo-nos da irritação do nosso cavalo – Ele hoje está agitado.
António viva ali perto, tinha a possibilidade de visita-lo todos os dias, o que era uma bênção para ele, porque adorava tanto aquele cavalo como o sitio. Apesar de estudar numa escola diferente da minha, vivíamos todos na mesma terra, o que facilitava a convivência. Engraçado era a história de como nos conhecemos.
No desconhecimento total, António e eu estávamos enamorados pela mesma rapariga, Maria. Claramente bonita, para uma rapariga de 14 anos, Maria ainda crescia, mas o seu corpo já esculpia o ideal de nós os dois. De cabelo claro brilhante, com os olhos castanhos, mas ligeiramente brilhantes, mostrava a simpatia e o carinho pela vida, mas a seu cuidado com a beleza externa era enaltecida por pequenos brincos de floreados. Partilhávamos em comum a mesma sala de aula, mas isso nunca foi vantagem para mim. A inocência de Maria criou um encontro entre mim e o António inesperado, mas Maria sabia que isso podia acontecer. Tendo mesmo assim, criado o mesmo hora e local de encontro para ambos, é claro que a picardia gerada por ela criou uma espécie de amor ódio entre mim e o António. Azar da vida, a minha bicicleta fintou-me a vontade de guerrear pela minha bela amada. Mas a ajuda de António foi preciosa mesmo naquele momento o orgulho estar a berrar alto e transparecer para a cara.
- Vá, anda lá a minha casa. Eu posso-te ajudar lá – disse de forma doce António, sem qualquer raiva ou remorso no olhar para o seu rival.
Concedi o seu pedido, sabendo que não tinha alternativa, até porque tinha que voltar a casa antes de jantar.
Maria despediu-se de nós com um levo beijo no rosto a ambos, o que para mim e para ele, um com 14 e outro com 13 anos, era uma grande vitória. Eu esbocei um sorriso interior e ele não conseguiu disfarçar aquelas bochechas rosadas e aquele ar de parvo apaixonado com um sorriso peculiar, mas não exagerado
Ficava a cinco minutos, a caminhar, desde o átrio da igreja até ao portão da casa dele. Não consegui desfarçar a minha irritação pelo que ela me tinha feito, mas a minha preocupação do de não conseguir recuperar a minha bicicleta fez dissipar aquele pequeno ódio.
- Vai ser difícil, mas penso que temos tudo o que precisamos aqui. – disse o António observando a bicicleta como se percebesse do que estava a falar.
- Bem, espero que sim. Esta bicicleta esta me a dar cabo de mim. – disse-lhe com o ar mais simpático que consegui, até porque, no final de contas, precisava dele.
António e eu deitamos as mãos a obra, mesmo não percebendo nada do assunto. Entre o spray, ferramentas e batidas na bicicleta, a conversa flui que nem um barco em alto mar em dia de boa rés. Parecia que nos conhecíamos desde que ambos nascemos. Tal como a conversa, as horas piscou-me o olho deixando a conversa a marinar.
- Obrigado António, já me ajudaste muito.
- De nada. Mas passa aqui amanhã, afinal estamos de férias e moramos perto um do outro, podíamos ir dar uma volta de bicicleta.
Consenti claro, era difícil não querer passar tempo acompanhado até porque as férias estavam a começar e os planos também eram escassos. Mesmo sendo contados, as mensagens escritas pelo telefone era o meio mais fácil de manter contacto. Não eramos ricos, mas a ambição de estarmos tecnologicamente avançados fez com que ambos mos tivesse um telefone cada um, que apesar de básico, servia o prepósito.
No dia seguinte, era 10 horas da manhã e o sono batia na minha cabeça que nem tambores em dia de festa. Apressado tomei o meu banho esfregando me ferozmente todo o corpo. Apanhei a primeira toalha que tinha ao pé de mim e sequei-me o desenfreadamente deixando os detalhes para mais tarde.
«Estou atrasado caramba» e tinha razão, já batiam as 10h15 e o António já esperava por mim. Ferrei um pão e desci as escadas deslizando me pelo corrimão. Sento me na bicicleta e apronto-me para sair de casa o mais rápido que consegui. Eram 10 minutos que nos separavam em pedal de ciclista profissional, mas aquela subida era indeterminável e venceu-me.
De travão, fiz uma razia ao moro, mostrando a minha habilidade de bicicleta, mas senti que alguém estava do lado daquele muro de dois metros de altura, fazendo subir a vergonha até a cara.
- António, está aqui um amigo teu. – Gritou a mãe de António num tom docemente colicativo – Olá Bruno, entra! – disse colocando um sorriso tão genuíno e afável que nem consegui agradecer.
Subi o degrau de bicicleta e inconstei-a junto ao muro da curta varanda que fazia um pequeno resguardo para a chuva, mas de embelezamento para uma das entradas. Aí ficava o escritório da casa, que na realidade era o espaço de António, onde a televisão em tom alto fazia anunciar desenhos animados. Era um espaço pequeno, mas tinha tudo o que mos precisava para passar o verão de forma divertida.
- Bora Bruno, vamos dar uma volta de bicicleta. – disse António entusiasmado.
Não recusei claro, parecia me misterioso, mas promissor. Acho que o mistério de certa forma nos move, fazendo a curiosidade fervilhar na alma.
- Cuidado aos dois, a estrada está bastante perigosa por estes dias. E levem um chapéu que o sol está forte!
Este lado protetor têm uma razão de ser e vêm com algum sentido de ser. António era o único filho desta mãe que sofreu muito quando este nasceu. As doenças e a prematuridade obrigaram a esta mãe a proteger o seu filho e a temer a vida dele, o que é normal dada a circunstância. Quem olha para esta mãe vê demasiada proteção e medo, mas eu não via isso nela. A desprovida falta de maldade era visível e o seu lado doce para com as pessoas em volta sem pedir nada em troca fazia tocar o coração de qualquer um mesmo daquele mais duro coração e frio. Era impensável não expressar um sorriso quando a sua preocupação imanava não só no filho, mas as pessoas em volta.
Pego na minha bicicleta, verde relva e ligeiramente mais alta que de António, porque a sua estrutura era mais baixa, mas a sua solidez requeria uma bicicleta mais massuda. Apesar de preta, o seu brilho denotava cuidado que ele tinha nela, até porque não era para fazer com que se tornasse mais nova do que era, mas sim porque ele oleava-a sempre que podia, mas fazia-lo sempre de uma forma desajeitada.
Com a pedalada forte, toda aquela lubrificação que serviria um prepósito, não seria esperar um ruido forte sair dela, mas cinco anos de velhice e de muitos km é normal que ela se ressentisse nas partes onde já nem o óleo valia. Mas isso não o constrangia, bem pelo contrário, fazia-o rir sempre que cada ranger fazia. A minha era bastante velha, mas já existia durante algum tempo, até porque já passou de primo para primo e o desgaste era demonstrado na pequena ferrugem entre as manetes do travão. Mas não me fazia envergonhar, até porque no fundo o que interessava era que ela me acompanhasse e acreditem, acompanhou-me até aos dias de hoje.
- Estamos quase lá, vais ver que vais gostar – arfava António sem nunca se esquecer sorrir.
Em cinco minutos fizemos o caminho até ao destino, e mesmo sendo um curto percurso o que era crucial aos dois era fazer todo o caminho de bicicleta, nem que fosse para cruzar a estrada. Isso mostrava a imponência de dois jovens másculos que queriam impressionar os outros (digamos que queríamos impressionar as raparigas e mostrar a nossa independência, o que não nos fazia valer de muito).
Depois de uma travagem abrupta onde o som dos meus discos ecoou naquela velha estrada, senti as minhas rodas a raspar numa num chão de gravilha disperca. Bastante presente era aquele cheiro a estrume novo que fazia antever um campo preparado para um novo cultivo.
- Chegámos, não demoramos assim tanto. – Saltou da bicicleta e encostou-a ao muro que parecia não ser seguro até porque parecia velho e prestes a cair. – Encostas aqui a bicicleta, ninguém passa aqui por isso e está visível para que ninguém se encoste a elas.
Confiei claro até porque o tom seguro e firme criou uma confiança suficiente para não pensar nas consequências que poderiam ter em abandonar os nossos veículos ali. Que motivos tinha eu para desconfiar?
Nesse instante, António saltou para cima do muro e sentou-se, o que me fez dissipar o resto de insegurança sobre aquela decisão. Ergui o olhar por cima do muro que era mais curto do que aparentemente se avistava, era visível aquele musgo velho e carregado de pequenos insetos onde preenchia cada pequena falha que já demonstrava. Apoiei os braços onde seria menos desconfortável dar o impulso necessário que o corpo subisse, mas todas as irregularidades e pontas pontiagudas que tinha fizeram com que a escolha se resumisse a ter um pouco de dor.
Sentei-me ao lado de António onde a sua expressão era séria até porque no momento estava pensativo, mas a sua calma alegre no olhar mudava o cenário, mesmo tendo mergulhado na imensidão dos seus sentimentos e pensamentos
O sol erguia-se em calmo, mas forte, onde já beijava o lugar que parecia esculpido por um filme de Hollywood, parecendo que cada pedaço tinha sido colocado para que toda a harmonia daquele lugar fosse o mais natural e balançado possível.
Um pasto imenso, com uma verde relva viva e fresca parecia acabada de nascer daquela terra adobada peles fazes dos animais de pasto. Pequenas flores silvestres roxas brotavam entre as verdes pontas daquela rústica relva que cada vez que se aproximava dos nossos pés era mais presenciada por uma terra pedrulhenta mas bastante mexida pelos animais que ruminavam por ali alinhando o nível do relvado todos os dias. Levantei os olhos no horizonte e senti que tinha entrado num outro espaço onde a ordem, a beleza e as palavras não chegaram, mas deixei que o coração guiasse meu olhar. Dentro desse pequeno pasto, via-se claramente pequenos montinhos que onde os animais caminhavam com a calma suficiente para acalmar a alma e os sentimentos de todos que ali parassem. Por cima do sol, uma árvore imensa e centenária glorificava aquele pequeno monte, o mais denotado de todos. Natural e estrategicamente colocado por baixo do sol, só consegui ver a sua imensidão escura e envelhecida onde o sol fez com que as suas cores fossem escondidas por um sombreado da manhã que erguia calorosa. Claro que isto não podia de culminar com uma peça fundamental que tornava aquele lugar mágico e saído diretamente de um quadro sentimentalista. Com uma cauda desajeitada, um vadio cavalo cor beije corria sem destino, com passadas cansadas, mas gloriosas. O relinchar forte marcou a sua posição no horizonte que de certa forma dignificou aquele lugar, mas o seu cansaço levou a tomar o lugar debaixo daquela majestosa árvore secular, aproveitando o trabalhado sombreado que o sol criou desprovido senso de superioridade. Era difícil uma imaginar uma árvore mais sumptuosa, mas mais árduo era encontrar um lugar mais harmónico que aquele que pode ver.
- Então, o que achas do lugar? É bonito, não é? – António cravejou-me o olhar inocente, mas bastante sentido.
- Não sei mesmo que dizer, acho lindo. – Fiquei embasbacado com aquela magnitude.
Era difícil não se deixar levar pelo lugar e a conversa segui o rumo ao mesmo nível que aquele lugar se deixava clarear pelo sol que se levantava para aquela tarde de junho quente.
A conversa fluiu como o vento que tentava arrefecer de forma calma os mais calorosos corpos. E quanto mais se sentia aquela brisa mais aquelas duas juvenis almas contavam os mais profundos medos, ideias e planos. Os ouvidos focaram-se nas palavras, mas os olhos focaram-se no que envolta seria a paisagem de uma vida.

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