Podiam ser vinte e três pequenas fotos, mas cada uma tinha linhas de histórias diferentes onde relatavam não só o que eu tinha vivido mas o que aquelas três almas infantis tinham crescido com o tempo. A dimensão delas era pequena, mas foram muitas coisas que mudaram desde os meus 14 anos, não só em mim, mas a neles também. Muitas das vezes, crescer significou deixar cair uma máscara de alegria falseada por um sorriso e destapar aquele pedaço negro que ficou guardado naquele recanto do coração e que não queremos que ninguém abra. Viver é fácil, mas crescer já era um desafio diferente.
Com as costas frias do encosto com a parede da minha cama, o desconforto nas omoplatas contra aquele monte de tijolo com pequenos grãos de areia a dar relevo, fez-me obrigar a deslizar o corpo para aquele emaranhado de tecido onde já me tinha revirado vezes sem conta enroscando-me de forma involuntária entre os lençóis. Coloco a cabeça na minha grande almofada em formato de chouriço, que vai de uma ponta a outra da cama para que eu me possa rebolar sem ter o medo de levar a cabeça às duas mesas-de-cabeceira que estava colocadas de forma estratégica na cama.
Tento olhar de longe as restantes fotografias ainda com os olhos turvos do sono que não teve o ciclo que devia e que o corpo merecia na realidade. Não só o António estava presente naqueles pequenos retratos em poses bastante ridículas, mas outro ser emergiu por entre duas linhas que componham cada momento. Pedro era sem dúvida a linha da direita de uma estrada com três vias, onde a só os mais velozes e radicais se aventuram em rotação máxima, desafiando a autoridade e as leis. Mesmo tendo uma estrutura baixa, o seu lado rebelde para um rapaz de 14 anos era bastante apurado, mas não deixava nenhuma rapariga indiferente. De cabelo castanho com pequenos caracóis dispersos, os olhares centravam-se nele. Aquele olho castanho batia com o olhar cerrado e malandro, que só se abria com as batidas da bola de futebol entre os pés puxando o seu lado agressivo e másculo ao de cima. Mas na aparência das coisas e debaixo de uma pela branca e de um coração com uma camada de pedra, bombeava um grande ser humano delicado, com todos os sentimentos escondidos por um muro que apenas se deixava abrir quando sentia a segurança de um forasteiro digno de presenciar e observar tudo o que ali dentro se guardava: e acreditem, guardava-se muita coisa para um rapaz com uma moldura de garanhão rebelde.
Acreditem ou não, eu sou alguém cujo futebol dizia-me muito pouco para a idade, então ser um dos jogadores era uma coisa totalmente impensável. Ao primeiro chuto que dava na bola, ponha-a em colocação baixa onde o máximo que ela iria esvoaçar seria uns 4 ou 5 metros, mas nos melhores casos. Mesmo sendo um não aficionado, o meu sedentarismo obrigou-me a escolher um desporto que me fizesse sair da monotonia dos dias de escola. A pressão de um vizinho treinador de rapazes com a mesma idade que eu para com o meu pai, fez com que eu me decidisse a juntar-me aquela equipa de futebol mesmo sendo um completo falhado na matéria (e na prática também). É logico que o medo emergiu me no exato momento em que deu o sim, até porque todo o bullying que já sofria exatamente pela minha falta de habilidade para algo que a sociedade disse que os homens tinham que ter, ergueu aquele medo de voltar tudo a acontecer de igual forma. Conformado com a situação, fui ao primeiro dia de treinos com a melhor cara possível. Olhei para as paredes gastas pelo tempo, sente-se no ar aquele cheio a terra quente onde a rega do guardião do campo fez acalmar a poeira do vento do pequeno vale onde ficava o campo. A entrada, o suor e o cheiro a gel de banho misturavam-se anunciando o primeiro balneário da casa mas também o final de um intenso treino dos juniores.
- Estás entregue, depois eu venho-te buscar as 20h filho – disse o meu pai com orgulho no olhar.
- Não se preocupe que ele está bem entregue. Entra, equipa-te e vamos começar. – com o tom firme mas calmo, fez-me sossegar a mim mas também ao meu pai.
Entrei desconfiado mas com aquela máscara muito mal posta na cara. Olhei em volta e reconhecia algumas caras que já faziam parte do meu dia-a-dia escolar, inclusive o meu primo lá estava. De certa forma foi reconfortante, porque era como se tivesse na escola, mas isso insurgia outro medo: de voltar a acontecer tudo de novo e de todos os insultos começarem novamente. Obviamente não era só os meus colegas de escola que estavam lá, mas outras pessoas as quais nunca tinha visto, o que é natural, pois andavam a estudar numa outra escola diferente. Lá estava Pedro, que era o mais sociável de todos. Não era difícil de isso acontecer, até porque a sua forma engraçada de ser fazia com que as pessoas desarmassem logo a vergonha e a timidez que tinham, o que me fez acalmar um pouco.
- Olá, chamo-me Pedro! Já sabes qual a posição a qual vais jogar? – disse num tom entusiasmo.
- Acho que como guarda-redes mas ainda não sei bem. – menti claro, não porque tivesse medo, mas porque o meu prepósito de estar ali era mesmo ser o segundo guarda-redes da equipa. Não queria sair por baixo, é normal que assim o aconteça.
- Boa, vamos la então começar que não gosto de estar parado.
Equipei-me o mais rápido que consegui, não porque estivesse aleijado mas porque simplesmente como era uma guarda-redes precisava de mais tempo para me habituar aos novos “instrumentos de trabalhão”. Quero com isto dizer que precisava de vestir mais coisas que um jogar normal necessita, com a agravante que eu nunca tinha vestido nada daquilo. Para além da tradicional chuteira, caneleira e t-shirt, precisava algo que me protege-se mangas, cotovelos mais umas calças muito justas com umas pequenas almofadas nas laterais das pernas para amortecer as quedas e acima de tudo proteger o corpo do arreado que o campo pelado teria.
Era dia de captações e por isso sentia-se um nervoso no ar entre os jogadores, o que me escapou porque a vaga de guarda-redes estavam garantidas já por duas pessoas: eu e outro colega, Barbosa. Mesmo assim, todos eles emanavam uma forte sede de competição mas penso que era, não para garantir lugar, mas para começar a jogar futebol. Isso teria que esperar.
- Vamos correr e começar o treino – expeliu o treinador, dando assim início as captações. Todos temos a ideia que isto funciona como se fosse um casting, o que é natural porque seria a forma mais normal de pensamento. No futebol as coisas não funcionam dessa forma. As captações competia avaliar várias coisas: forma de jogar, atitude em campo e o respeito para com a instituição e staff de treino. Por esse motivo, essa avaliação só acabaria literalmente no final do treino, onde toda a equipa de treinadores que componha a equipa decidia quem e em que posições ficaria os jogadores.
Corria de forma desgastada, até porque era uma pessoa sedentária para a idade, daí a me obrigar a exercer um desporto. Apesar de todo o treino ser diferenciado, até porque guarda-redes e a restante equipa tinham objetivos em campo diferentes, eramos constantemente observados por toda a equipa, até para ver o que podiam contar em campo.
O treino era duro e consistia em treinos bastante físicos: ora atirava-me para o chão, ora me levantava, sempre com o intuito de criar aquele hábito de cair. Guarda-redes em relva deve ser duro, mas num campo composto por terra e pedras era um desafio humano imenso e apesar de toda a proteção, existia sempre aquela pedra pontiaguda escondida que teimava em ferrar-me o músculo da perna. Tudo era muito árduo e sinceramente pensei em desistir várias vezes, mas era maior a vergonha do que a ambição de concretizar esse pensamento.
- Vamos agora fazer um jogo de futebol: vamos dividir a equipa em dois. Os guarda-redes estão já definidos por isso cada um vai para o seu lado.
Caminhei em passo lento pelo areado campo e pensei: é desta que eu vou desistir disto. Cambaleando todo o caminho, desviei o olhar para o cimo e prestei atenção a formação das equipas. Um a um dirigiram-se ao lado onde já estava recostado ao poste direito da baliza, onde para meu espanto, Pedro, teria sido eleito como um dos elementos que componha a equipa.
- Bora, confiança. Vai tudo correr bem! – apeliu Pedro, com o olhar frangido de jeito a mostrar a garra toda.
Era fácil reparar que toda a gente estava contente, mas eu, só queria fechar os olhos e acordar dentro do balneário, já vestido e com tudo isto já terminado. Soou o apito e o primeiro chuto saiu dos pés de Pedro. Em posicionei me no centro da baliza nunca tirando os olhos da bola. Entre os dentes pedida que a bola nunca chegasse ao nosso lado do campo, mas claro que isso não aconteceu. Não tinham passado nem dez minutos, a bola surgiu do nada e num ápice um jogador apareceu no flanco direito a grande velocidade. Nesse instante, Pedro puxou-se para o lado do direito também, estreando-se com uma entrada de carrinho de forma a travar a bola, mas a velocidade a que ia não era suficiente. A defesa tentou impedir que a bola atravessa-se a grande área, mas a rapidez dos passes aliada a boa colocação da equipa adversária, fez com que a bola viaja-se de forma limpa entre os pés de cada jogador. Por entre as frinchas da defesa, um dos jogadores solta um pontapé desajeitado mas suficiente para levantar a bola a uns 2 metros de altura. Apesar de rápida, foi nesse momento que senti todos os olhares da minha equipa e de Pedro virados para mim. Com as mãos nas coxas e de joelhos refletidos só podia contar com a sorte, já que a técnica não era suficiente para enfrentar o que estava a acontecer. Mais entortada para a esquerda e com a gravidade a favor, estiquei os braços e com o um impulso forte voei ao encontro da bola. Sorte ou azar, a bojarda acertou-me mesmo no centro da barriga, fazendo-me encolher mesmo durante o voo e cair da melhor forma que podia para que a bola não passa-se da linha da baliza. O ar de surpreendidos de todos foi notório, até porque ninguém esperava uma coisa dessas vinda de uma pessoa que não sabe jogar nada, mas Pedro foi diferente.
- Eu sabia que conseguias. Vá bora, não podemos perder tempo, temos que ganhar isto.
Claro que fiquei orgulhoso, até porque eu próprio duvidei de mim mesmo. Mas não se deixem enganar: todo o resto do jogo foi uma lástima. Resultado final? Quatro para equipa adversária, zero para a nossa equipa.
- Não te preocupes, tiveste bem. É normal, nunca tiveste nenhuma experiencia como guarda-redes.
Eu sabia disso, aliás, não senti qualquer tristeza por causa do resultado. Estava bastante orgulhoso do que tinha feito.
Calejado das pernas, nunca sonhei que o que estava por baixo fosse hematomas grandes e arranhões dispersos. Não tinha essa ideia porque a terra era a minha nova amiga e por isso tinha o corpo todo coberto de uma fina camada de sarro que o corpo agarrou. Molhado e coberto de terra, foi me mais difícil tirar a roupa do treino do que todo o exercício. Corri para o banho, para que não fizesse o meu pai esperar. O que eu não sabia, era que ele me tinha visto parte do treino.
- Filho, vi o teu treino. Portaste-te bem.
A vergonha fez-me ficar sem palavras para o que acabara de ouvir do meu pai, mas por outro lado surpreendido, porque não esperava ouvir o meu pai a dizer aquilo. O meu pai conhecia toda a gente na aldeia, o que me fez esperar pelo terminar da conversa que também tinha lá o filho. Pedro foi o primeiro a entrar no balneário, mas era sempre o último a sair. Existe todo um processo daquele vaidoso que fazia demorar mais do que o normal, mas não era o único. De saco em ombros saiu com um ar visivelmente cansado e um enorme vermelhão nas bochechas que mostra todo o desgaste que ele teve durante o treino.
- Boa noite, vemo-nos quinta-feira. – disse subindo a rampa de saída do campo de treinos, onde se sentou para descansar, enquanto esperava pela mãe que o viria buscar.
A conversa entre o amigo e o meu pai continuava sem fim a vista e como estava farto ouvir aqueles temas de adulto não fiquei indiferente a solidão momentânea de Pedro. Subiu o mais depressa que conseguia, mesmo tendo os músculos a ceder de todas as quedas e pedras. Aproximei-me com cuidado, não sabendo da sua reação e disse a primeira merda que me veio à cabeça:
- Então Pedro, a tua mãe esqueceu-se de ti?
- Ah não, as vezes atrasa-se. A minha mãe trabalhar numa fábrica e tem turnos. Nem sei bem se ela vem-me buscar agora ou mais tarde mas não há problema, aqui não vou ficar.
Tímida, a conversa avançou sem relevo e importância, até porque não passava-mos de dois estranhos miúdos. Claramente o que nos ligou ao momento foi o facto de ambos sermos animados, se assim não fosse, a conversa tinha morrido quando começou.
- Vamos filho, está na hora. – gritou o meu pai.
- Fica bem, vemo-nos no próximo treino.
Passaram-se treinos e treinos e claramente não estava a melhorar a minha técnica. Não era fácil, até porque ser guarda-redes é muito ingrato: se defendes, és o maior, se marcou és o pior. Mas eu viva a bem com isso, até porque não estava muito interessado com a opinião dos outros. O meu objetivo era o desporto.
Como eu e António eramos como unha e carne e por isso todo o tempo livre, mesmo em casa era passado a conversar sobre parvoíces, a ver as miúdas na rede social do momento e eu a explicar o quanto odiava o futebol mas ia com toda a força.
Falei-lhe claro de Pedro e de toda aquela experiência que tinha passado, enaltecendo claro as partes onde a minha cara roçou pelo chão vezes sem conta. Claro que nos ri-mos muito, até porque ele percebeu o exagero que aquilo estava a ser, mas também o quão divertido parecia ser. Não era de todo, mas é normal achar-mos estas coisas quando não são connosco que acontecem.
Quando descrevi Pedro, António entendeu logo quem seria a pessoa que falava, até porque a vida encarregue-se por vezes nos pregar partidas engraçadas e acontece de que linhas que pensamos serem distantes, estarem mais próximas do que antes. Pedro era um ano mais velho que António, mas os infortúnios da vida fizeram que Pedro se atrasa-se no seu normal percurso escolar, fazendo recuar para o mesmo ano escolar que António. Claro que isto fez despertar uma certa curiosidade em explorar mais e de entender o porquê das coisas. Se calhar não havia uma razão aparente ou mesmo razão nenhuma, mas na minha jovem cabeça não entendia: um rapaz aparentemente inteligente, ter reprovado um ano era estranho. Muitas devem pensar: mas que têm ele haver com isso? Eu também me perguntava muitas vezes isso. Se calhar muitos encaram isto como coscuvilhice gratuita. Eu apenas via aquilo como “Como posso eu ajudar?”.
António e eu partilhávamos da mesma linha de pensamento, até porque esse era um dos motivos que nos unia, ter-mos uma única forma de pensar e uma vontade gratuita de ajudar. Como referi muitas vezes, a Internet unia as pessoas e isso foi o que nos uniu a Pedro. António era claramente uma pessoa sociável e como bom falador e amigo tinha contacto de toda a gente.
Foi o messenger que nos aproximou a Pedro e como era natural, o futebol foi sempre um ponto de partida para conversas sem um ponto de chegada. Foram horas de conversas, confissões e discussões, que começaram por um contra-ataque mal entendido por um finalizar de golo bem assente no coração. Era difícil de chegar até um profundidade onde o coração começava abrir as portas mais sombrias e escondidas, mas acreditem que o que iam encontrar lá eram coisas bonitas e cheias de amor para dar. Atrás de uma dureza e brincadeira, escondia-se um miúdo desejoso para ter uma família, por ter uma namorada a quem escrever aquelas cartas lamechas, para fazer aquelas surpresas e a quem partilhar aquele beijo apaixonado.
Na ingenuidade infantil que reinava pela aquela altura, pairava a vontade de andar-mos a saltitar de casa em casa. Afinal, era a forma que tínhamos de passar o máximo de tempo que conseguimos. Nem sempre todos podíamos, mas sempre que os três conseguíssemos nos juntar, não havia nada que pudesse alterar esse encontro.
António demarcou-se um dia desse encontro e como era verão e com férias passadas na casa onde cresci, decidi não adiar esse encontro com Pedro. Mesmo sendo distante, peguei na minha bicicleta naquela manhã de segunda feira e fiz-me a estrada. Eram cerca de 40 minutos de bicicleta, mas o tédio que sentia na altura era tão grande que nem o cansaço que ressentia nas pernas me fez parar de pedalar. Foram agoniantes todas aquelas subidas que fazia, mas eu sabia que no fim, o destino ia me recompensar por todo o caminho que percorria.
Pedro tinha uma casa mesmo no cimo de um pequeno monte de uma vila próxima da minha aldeia, o que tornava a casa dele um pequeno e calmo paraíso dentro de uma vila agitada e movimentada. Ao pé da casa, um pequeno monte de carvalhos e eucaliptos tornavam o ar fresco e carregado de cheiros e aromas frescos e silvestres. Era claro o som dos pássaros, mas o que mais se sentia era o uivar dos cães vadios que habitavam naquele pequeno monte. Parecia tenebroso, mas era mais calmo do que sombrio. Pedro e os seus pais eram pessoas humildes, com uma casa construída com o suor do trabalho de todos os dias. Por vezes esse trabalho era estendido por turnos seguidos para que tudo se mantivesse. A casa estava inacabada mas não incompleta: tudo parecia inacabadamente perfeito. Lembro-me de quão quente estava esse dia mas aquele atijolado chão mantinha aquele sótão a uma temperatura aceitável. Sempre de computador ligado, a primeira coisa que me fez foi mostrar aquela mistura de música que havia feito no dia anterior numa aplicação informatica super avançada. Para ser sincero achei horrível, mas acho que ele o sabia.
Eu adorava computadores e por isso tudo o que fosse eletrónica ou informática eu sabia o que estava a falar. Pedro era bastante bom, mas sabia que a minha paixão por computadores fazia-me perder muito tempo a explorar e a conhecer coisas que outros não saberiam.
- Tenho uma coisa para te mostrar e vou precisar da tua ajuda - o olhar envergonhado de Pedro fez me inquietação até porque não era normal, era uma pessoa bastante segura. Entre os clicks do rato, afundou-se entre pastas e pastas até chegar aquele ficheiro escondido nas entranhas digitas do computador.
- Não te rias de mim por favor. - nunca o iria fazer. Aliás, estava com demasiada seriedade do que vontade de me rir. Pedro liga as colunas e abre o ficheiro que apenas dizia “surpresa”. Um pequeno video com pequenas imagens amorosas e cheias de paixão, com uma música de hip-hop calmo e romântico e umas transições pobres, tornaram aquele video tão recheado de paixão que era impossível melhorar aquilo. Como era possível melhorar a carta de um romântico para a sua amada. Vi a vergonha de Pedro reflectida e eu a surpresa no meu olhar. Fiquei tão preplexo quanto ele ficou de envergonhado.
- Não precisas de ficar assim, está muito bonito o video - não menti claro, estava tão querido o video que não tinha coragem de apontar um único defeito. Mesmo imperfeito, o video era a demonstração mais fidedigna do que ele sentia e não é justo para ninguém melhorar isso. Reparei na pequena lágrima no recanto do olho e aí não me contive no abraço, até porque senti que havia mais alguma coisa que ele tinha me para me contar. E tinha mesmo.
Mesmo os mais duros corações sofrem e isso era o que mais me custava ver nele: aquela lágrima que visse no canto do olho era o coração cheio de um rio de tristeza, angústia e mas carregado de pequenos peixes alegres, apaixonados e cheios de vida. Foram bastantes aquelas lágrimas que foram expelidas dali. Todos sabemos o que um coração apaixonado no silêncio dos pensamentos guarda e isso nunca poderá ser contido. Não conseguimos guardar um mar dentro de nós porque se não vamos acabar por ser consumidos por ele. Pedro sabia disso, mas todos em sua volta eram homens. E os homens não choram.

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