Existem cartas que ficaram perdidas no tempo, guardadas para serem enviadas mas onde a cobardia do momento impediu que fossem enviadas. Deixámos a tinta escorrer nas linhas, deixando que o coração tome conta da mão onde o coração cuspe tudo que acumulou: lágrimas, sorrisos, momentos, abraços. Hoje vou expondo cada momento na esperança que ela chegue, não ao verdadeiro destinatário, mas ao vosso coração.

21/01/2021

Capitulo 4 - Existe um lugar de paz




O inevitável acordar da manhã obriga-me a analisar os recantos do meu pequeno quarto com o meu olhar ensonado e cheio de uma pouca vontade típica a minha
. As manhas são sempre difíceis e por elas o serem deixo-me acordar sentado mesmo com o desconforto da parede que me sustenta este ensonado ser.

Neste meu olhar turvado, sorrio para o meu pladur que mais se parece com um altar de contemplação. As velas foram colocadas de uma forma estratégica para eu sempre lembrar do meu passado. Nem só o Pedro e António estão presentes mas também toda a feliz lembrança que um dia foi inocente e sempre rodeado de quem só pedia uma coisa de mim: felicidade. Um dia isto desapareceu, ficou a lembrança eterna de uma história feliz e carregada de uma jornada de descobertas. Descobertas dos sentimentos, do que somos e do que queremos. A inocência não deixou descobrir mais do que a superfície de uma vida adolescente moldada para estudar e brincar. Não queríamos se não mais do que ficar longe dos nossos chatos pais que impingiam coisas, imponham regras e que estabeleciam limites. Queríamos quebrar limites sem nunca aprofundar esses limite e isso faz toda a composição de palavra inocência.

Mas quando somos daquela idade tenra nada mais queremos. E um dia essa idade aumentou e com ela aumentou a ambição de ter mais e os sonhos que eram parvos tornaram-se sérios. Um telemóvel já não chegava para preencher e entreter, havia algo mais que faltava aprofundar e que faltava saber. Ainda nem sabia bem como. A responsabilidade tomou outro patamar, mais sério e ponderado. Chegou o tempo de tomar decisões sobre o meu eu, sobre o meu futuro, como me vejo e o que quero.

O quadro de Jesus ao lado de Pedro e António não era mais que a lembrança de saber que me encontrei e do constante lembrete que devo tudo a Ele e a eles. 

Dizem que a adolescência é dura. Não vou embelezar e dizer que faz parte da vida como se fosse algo que todos fossem passar. Temos todos os percursos diferentes na vida e o meu percurso da adolescência foi de encontrar o meu ser, de ver-me por dentro e de perceber que toda a minha felicidade não passava de uma falácia feita para tornar suportável todo o ensino básico. Todo o meu sorriso dado durante todo o meu percurso no ensino básico estava carregado de uma falsa alegria que mesclava a minha tristeza profunda para não ser interrogado constantemente sobre ela. O meu ser pintou o quadro mais belo com todas as minhas lágrimas vertidas no meu recanto longe dos olhares dos outros e passeou-se diariamente naquela escola. A minha alma chorava e pedia para que acabasse mais um dia, para que eu pudesse-me refugiar no meu recanto. Refugiava-me na coisa que mais gostava na minha vida: computadores e tudo que andava volta.

O meu gosto por informática foi o meu caminho e o meu ponto de viragem para uma nova jornada que eu sabia que ia ser difícil.

Desamarrei-me de todas as memórias, rotinas e medos e segui para um novo ambiente escolar para me debruçar no que realmente fazia sentido: eu e no que o meu eu gosta. A mudança não era fácil e o medo de o ‘bullying’ pairava neste novo centro escolar, mesmo sabendo que este novo sitio dava-me a oportunidade de mostrar outro eu aquele falso quadro alegre já não pintava uma pessoa feliz, mas agora refazia num sentimento defensivo com medo de ser opresso, como já acontecera.

Esta escola diferia, não só porque era outro, mas porque havia um sentimento de que o aluno fazia o seu percurso. Acredito que pelo facto de ser uma escola católica e com bases na Igreja fazia com que as pessoas pudessem ser elas, sem julgamentos, sem preceitos nem ideias pré-concebidas. Mas, ainda assim, não deixávamos de ser uns putos estúpidos e sem maturidade para admitir que não temos maturidade.

Lembro-me de no primeiro dia explicaram-me que esta escola profissional para além de ser católica era uma escola feita e gerida por padres jesuítas.

- O que é isso, padre Jesuíta? - perguntei eu.

A pergunta era tão inusitada que se riram. 

- É uma ordem religiosa como qualquer outra, com muita estória e baseados na espiritualidade. - respondeu o homem bem-vestido a sorrir, mas não de uma forma julgadora nem opressora, mas de uma forma feliz e livre de julgamento. - Eu sou padre jesuíta e não difiro de vocês. Tive a minha adolescência, tive as minhas paixões, mas acabei por perceber que sou apaixonado por Ele e segui esse caminho. 

As palavras do Padre Pedro ecoaram-me na cabeça e deixaram a minha alma inquieta. " Como uma pessoa que namora, vai para Padre?". A minha inquietação fez despertar a minha curiosidade e isso foi um ponto de viragem para toda a vida. Com o tempo que passava naqueles corredores, Pedro sorria para mim como se soubesse ter perguntas, como se a minha curiosidade ganhasse forma de falar por mim. Talvez o meu olhar não deixava calar as perguntas que a minha mente tinha.

Padre Pedro e eu tornámo-nos amigos e era inevitável que assim não fosse. De uma alegria e simplicidade faz retocar-me as ideias feitas que tinha sobre padres e mostrou-me que para lá de uma vida de oração e devoção existe um ser próprio, com defeitos e virtudes, que tem os seus desejos, os seus passatempos e os seus "pecados". 

- Pedro, o que é esta imagem que tens aqui na sala? 

- É o Cristo do Sorriso, uma imagem importante para mim e para todos os Jesuítas. É com ela que rezámos, que discernimos e que nos acompanha nesta jornada pelo mundo.

Confesso que aquela imagem não me sai do olhar, não por se hedionda, mas por ser impactante. Não era uma imagem de Cristo convencional, com aqueles prefeitos pesados e sempre representada de forma a dar um peso de tristeza, dor. Era uma imagem alegre, de um Cristo que sorria, onde emanava paz e serenidade, invés de uma inquietação e instabilidade. Quando imaginamos uma imagem de Jesus imaginamos uma cruz onde está um ser cheio dor, que morreu no sofrimento e na inquietude, onde suplicava que terminasse. Esta imagem era a contrária. Onde havia tristeza reapareceu a alegria, onde havia dor revelou-se a calma, onde reinava a dor converteu-se na paz.

Hoje essa imagem permanece ao lado deles (Pedro e António) símbolo de paz, mas a cima de tudo, símbolo de transformação de um novo eu, de um ser que deixou o medo e para começar a caminhar na sua jornada para uma paz para consigo mesmo. Somos o que somos pelo caminho e eu sabia que o meu caminho mal começara a ser feito. 

Mas agora sabia, que esse meu caminho já não ia ser feito sozinho. 

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20/01/2021

Capítulo 3 - Apenas crescemos

 


Posicionada em cima da grande cómoda, mesmo na entrada do quarto, repousava a minha maior prenda pintada a carinho, que eu mantinha, e que ainda hoje mantenho, estrategicamente posicionada para a cama para que todas as noites, o meu olhar se desvanecesse com aquela imagem. Passaram-se os anos e sempre que acordo o levanto, aquela fotografia ficou para imortalizar o sentimento que hoje perdura em mim como ainda fosse naqueles dias.

Havia sempre uma vela acesa que me fazia trazer a calma dos dias turbulentos, mas a vela estava ali não para que o meu sono chegasse mais rápido, mas para que a sua luz iluminasse aquela pequena memoria.

Vão sempre ficar ali, os meus dois melhores amigos da vida, onde os possa olhar sempre para que todos os dias me lembra: as coisas quando são partilhadas são mais fáceis e que não somos melhores se vivermos sozinhos; não somos ninguém sem ninguém; não somos mais fortes a sós. Mesmo que hoje, não saiba mais nenhuma notícia deles, nunca me vou esquecer de cada pedaço de história que tive a sorte de ouvir, desde a mais tola e sem sentido a mais profunda e triste que avassalava cada um de nós.

Hoje revisito cada espaço, relembrado de cada riso e de cada momento. Muitas pensam que está na altura de deixar eu ir estes pensamentos, memórias e pessoas até, mas não posso. Hoje sou o rapaz que sou porque cada um deles me trouxe um pedaço de mim para a tona do adulto que sou hoje e bem ou mal, esquecer-me deles é esquecer-me do que sou. Não posso deitar para trás todas estas memórias, sendo boas ou más, porque elas sou eu.

Cada vez que penso no que aconteceu, não consigo perceber e dar um motivo para que consiga fechar esta história de uma forma que possa arquivar na minha memória para a revisitar sem sofrer, até porque isto tudo se parece a um corpo que morreu mas nunca apareceu. Sabemos sempre que acabou, mas nunca vamos descansar até perceber: porquê?

Claro que sempre tentei ir a procura desta perda e esta procura levou-me sempre a lugares que a memória apenas tinha já um deslumbre escasso e vazio. Mais do que as pessoas, os lugares cravaram a história tornando-a imortalizada e sempre disponível para ser revista. Não faz sentido aqueles lugares sem as pessoas, pensava, mas hoje, penso que aqueles lugares fazem mais sentido do que as pessoas.

Sempre que penso: qual foi o momento que achas que tudo se desmoronou? Acho que não houve um momento, até porque sinto-o que não houve nada que pudesse ter feito de diferente para que todos continuássemos a falar, não como antes, mas como no início. É aqui que a minha mente viagem para todos os momentos em que tivemos juntos, fazendo as noites o nosso momento de confissões obscuras e cheias de receio, mas sabíamos, todos, que ninguém ia entrar nesse sombrio lugar sozinho.

A casa de Pedro era a predileta para os nossos momentos de descontração, até porque era a casa onde mais espaço tínhamos mas também onde mais liberdade tínhamos para partilhar tudo o que nas semanas anteriores aconteceria. Eramos todos rapazes jovens e claramente o tema que mais vinha à tona era todos os amores que tínhamos, cada um com a sua amada. O riso surgia quando se explicava a sensação de ter as nossas bocas encostadas a nossa amada donzela, até porque a parvoíce inocente surgia discreta mas era normal, até porque tudo era uma novidade para nós.

Claramente não estávamos preparados para ter uma relação, muito menos eu, até porque isso nunca esteve claro na minha cabeça, o que me fazia calar nos momentos onde Pedro e António partilhavam tudo o que sentiam.

Pedro pela sua namorada Ana de cabelos negros lisos com uma pela branca mas não pálida, uns olhos pequenos mas cheios de uma cor preta reluzente, onde nos intervalos esquivavas se para sua casa para encher e surpreender a sua amada com amor e carinho, dizia. Claro que nós sabíamos que ele tentava mais alguma coisa, até porque nas entrelinhas do pensamento dele, era evidente que tinha perdido a virgindade com ela. António estava caído pela sua Maria que apesar de nova e citadina era uma rapariga que imanava uma simpatia única que fazia maravilhoso contraste com o seu lindo cabelo loiro e os seus olhos cor de água. Era difícil não gostar dela.

Todos se perguntavam: então e tu? Eu? Eu estava desapegado, confuso e distante de sentimentos amorosos por alguma rapariga. Eu era preenchido por complexos estúpidos e sem sentido, mas que me fizeram “bloquear” os meus sentimentos por alguma rapariga, pelo menos era o que eu pensava. Naquele momento e nos meus 14 anos, era o que fazia sentido. Pelo menos era a única explicação lógica. Claro que olhava para eles com inveja, até porque era o “patinho feio” deste pequeno grupo. Obviamente, só eu é que tinha este sentimento, mas eles não me viam assim.

- Tens que falar mais com elas, tens que ser tu próprio. – Respondia António.

- Sim, usa a internet para conquista-las, vamos tirar umas fotos novas para pores, vais ver que elas vão cair aos pés – empolgado Pedro, já pegava na máquina fotográfica dos pais pronto para uma sessão de modelismo bombástico.

Não estava muito empolgado com o assunto, até porque fotos não era a coisa que mais gostava. Apesar de ter uns olhos verde alface de invejar e um cabelo claro, achava sempre que nada me ficava ao nível do que era e ser eu próprio não estava a ajudar. Na loucura da idade, Pedro era o mais metrossexual de todos, até porque o cabelo não podia fugir um milímetro do que ele idealizava. Sempre esticado com cuidado e carregado de gel para enrijecer todas as partes, o alisamento do grisalho cabelo que tinha fazia-lhe tornar uma espécie de surfista sul-africano mas de tom branca.

Já de prancha em ponho, pronto para passar a ferro o meu encaracolado cabelo, sentaram os dois frente ao espelho, onde parecia que iam-me fazer um “extreme make over” no meu visual. Foram duas horas de sofrimento, onde um escolhia o local para tirar as fotos o outro alisava-me o cabelo com a determinação fincada, como se aquilo fosse para ele. Depois de uma criteriosa escolha, começou a sessão: “Vira-te para o lado”; “Olha para cima”; “Mete o braço no joelho como se tivesses a pensar”. Foram dezenas as fotos que aquela máquina tirou, uma das primeiras digitais que Pedro tinha e que guardava para estes momentos seus, que foram e acabaram por ser nossos.

Se acham que isto foi doloroso, imaginem a quantidade horas que foram precisas para escolher cada uma das fotos que todos tirámos naquele dia. A escolha não era fácil mas o critério era simples: a foto mais gato de sempre de todos. O consenso não era fácil, até porque era uma decisão que os três tinham que fazer. Para mim era me indiferente, mas para eles era como se aquela escolha fosse de vida e de morte.

- E se tirássemos os três uma foto? Não temos nenhuma nossa. – disse eu, esperando um não.

- Claro, boa ideia. Bora, vamos la tirar isso – responderam todos

Fomos para a frente de uma espelho, avaliar o visual. Eu parecia um leão despenteado com uma juba em palha, António com um cabelo desalagado aparentava ter dormido horas e acordado violentamente e Pedro um ouriço-cacheiro penteado mas com um estilo peculiar. Apontou a camara e “flash”… Ficou ali o marco histórico tosco de três amigos a ajudarem outro. Ou em versão resumida, é foto central que olho continuamente nesta minha insónia teimosa.

Se a foto não fez furor nas redes sociais, podem ter a certeza que hoje, uma foto de 10 por 10 centímetros, tem mais história que todas as páginas que possa escrever hoje e em diante. Podia resumir dizendo que aquilo tudo foi para me ajudar, mas eu diria que aquela foto era o símbolo que as coisas quando são feitas do coração, não tem preço nem valor, até porque tudo começou pela minha insegurança e aquela deslumbrante foto era mais do que isso.

Pensam que eu não adotei aquele estilo durante algum tempo? Claro que sim, nem o Pedro e António deixavam que mudasse, nem um bocadinho, porque aquela ia ser a forma de um desencalhado arranjar a donzela do seu castelo encantado. O problema é que eu era o único que não estava encantado e eles nem se apercebiam disso. Fazia sempre questão de desenhar um sorriso sempre que se falava de raparigas, mesmo não sentindo que era esse o facto de me sentir infeliz e amargurado.

Sempre partilhamos tudo, todos os medos e sonhos, até porque a confiança que todos depositávamos era grande que o medo de sermos rejeitados dissipava-se. Mas isso aplicava-se porque eram medos “normais”. Os meus não era, até porque eu não os entendia.

Por não saber do meu rumo amoroso, havia uma coisa que eu sabia: que eu gostava destes dois como se fosse do mesmo sangue que eu e portanto não havia espaço na minha cabeça para ocupar mais do que eles dois. Apesar de ter uma irmã, que odeio e amo ao mesmo tempo, um irmão para brincar foi sempre um desejo que tinha desde pequeno, que nunca pode ter porque a minha mãe e pai não tinham orçamento para cuidar de mais um filho, apesar de gostarem muito. Tendo essa lacuna, tentava passar para eles que todo que fosse tormenta, medo ou angústia, mesmo a mais incompreendida, não iria fazer com que me deixasse desencantar por eles.

Tive várias provas disso e por isso olhei sempre para eles como um pilar bem soterrado na minha vida. Existem vários momentos que me marcavam mas houve dois que me marcam ainda hoje.

Cada um deles tem uma personalidade diferente, mas penso que era isso que fazia com que as coisas fossem manifestadas de maneira diferente, mas não deixavam de ser reveladas. Pedro era o mas duro de todos e apesar de eu ter referido que para ele um homem não chora, mas um dia esse homem quebra. E aconteceu. Pedro contara-me que a relação dele com a sua amada estava por um fio e que a iminência de acabar podia estar para breve. Sem demoras, aprontei-me para tentara perceber o porquê e para tentar ver o que falhou nesta fresca relação. Nessa noite de verão, Pedro fumou um cigarro no desgosto da noite que tinha “roubado”. Aí vi a gravidade da situação, até porque na inconsciência do ato a mãe podia o ver e aí seria um desgosto para ambos, apesar que para ele o mundo acabou estava ruido sem a sua amada do sei lado. A curiosidade fez-me experimentar aquele cigarro mas claro não correu como idealizava na minha cabeça: odiei aquilo.

Nada consolava aquela alma, que apesar de não brotar uma única lagrima o seu mundo estava inundado de uma amargura só. Ana era uma rapariga dos pais e o Pedro o rebelde que qualquer pai queria ver a sua filha distante. Isto originou uma confusão e medo em Ana que no calor do momento decidiu acabar aquela bonita relação que ambos tinham já há alguns meses mas o risco de os pais odiarem-no a ele fizeram ditar a decisão dela. Ele não compreendeu, como eu não iria compreender também.

Não consegui arrancar nada, até porque o assunto era constantemente desviado para outras coisas. O computador era uma boa distração para os dois, que passávamos a noite a ver filmes de ação e por vezes uns filmes não recomendados de adultos. Sorria sempre mas eu sabia que era tão falso quanto o meu sorriso. Era difícil de lá chegar, mas com Pedro, o caminho do coração era difícil e tinha que ser feito com cuidado, atacando de forma feroz e implacável. Claro que isso aconteceu.

Já batiam as duas horas da manhã e o peso dos olhos já se fazia sentir. Fomos para o quarto dele, que ficava a um lance de escadas desde o grande salão que ficava na parte de cima da casa. Como éramos dois a gestão da dormida era fácil, porque Pedro tinha uma cama de casal e não nos sentíamos estranhos a dormir lado a lado, até porque que mal faria? Não resisti em puxar por ele e perguntar onde é que ele e Ana se envolviam. O ponto de viragem apareceu em tom tremido. Mostrou me a carta que lhe tinha escrito e que nunca lhe tinha dado. Li cada linha como se aquilo fosse para mim e admito que o meu coração gelou, não porque tinha alguns erros, mas porque o que espelhou foi um coração cheio de amor e de sonhos a dois, num tom adulto e com sentido. Ali percebi que cheguei onde queria e era a hora de arrancar toda a água que aquele coração tinha dentro. Com a cabeça colada na almofada e com olhar cerrado no teto, Pedro falava do que aconteceu, do que lhe fez, dos presentes, das surpresas, das zangas e dos beijos. Eu apenas ligava a conversa, fazendo-o mergulhar mais dentro do coração.

- Luta, dá tudo que tens se gostas dela. Não te arrependas de seres tu. – disse eu, com uma voz rouca.

Pedro desmoronou-se em lágrimas, que acumularam-se durante dias, porque a vergonha assim o obrigava. Naquele desespero, o meu coração despedaçou-se com o dele. O meu instinto do momento foi dizer “não chores mais” enquanto lhe limpava a água dos olhos, mas se calhar o meu abraço foi o mais sensato gesto a ter para com um desamparado amigo. Parece estranho, dois homens abraçados nê? Na minha cabeça, eram duas pessoas onde uma delas se desmanchava em lágrimas e não havia mal nenhum no ato. Gostava que fosse comigo. Não pensei e agi.

A segurança do meu gesto fez aumentar o pranto onde só ouvia: obrigado por meu ouvires. Não era de todo uma obrigação, afinal, para que é que eu servia? Só para rir, jogar a bola e mal e para fazer umas asneiras em conjunto? Claro que não. Adormeceu rápido Pedro, até porque o choro cansou-lhe a alma. Seria bonito dizer que ele adormeceu feliz com gesto, mas o mais correto era dizer eu ele adormeceu na segurança da minha presença e na certeza que amanhã era o dia em que ele continuava a lutar por ela.

António era mais como eu nestas coisas. Era mais fácil de se chegar e de ouvir. Ele é a pessoa que hoje mais me ouviu e que sempre esteve presente mesmo quando estávamos fisicamente longe para que a conversa fosse feita cara na cara. Logicamente, e como passávamos muito tempo juntos, era normal que já existiam reações, ações e expressões que os dois já sabiam ler o que facilitava. A paixão era sempre motivo de grande para fazer um coração chorar e isso não passava ao lado de António. Apesar de calma e pacífica, a relação de António e Maria sofria como qualquer uma que fosse à distância: a falta de presença. Mesmo colocado ao telefone de forma constante, António sofrera como outros e quando chegava a fase dos testes era o pior momento para eles. Mesmo assim, poder falar destas angústias não era fácil, porque queríamos fazer no segredo sem que ninguém ouvisse e António não era diferente. Por isso é que muitas vezes, conversar por mensagem facilitava a comunicação. Não foram muitos os momentos em que António chorara, mas foram muitos os momentos em que ele partilhava todos os episódios tristes e alegres daquela sua história.

Por estes motivos, pensei sempre que nós fossemos aquele tipo de amigos que o tempo não iria meter mão, mas penso que me enganei. Penso sempre: será que existe alguma coisa que podia ter feito de diferente? O que fizemos nós de errado para que cada um segue-se a sua vida, ignorando estes pequenos detalhes?

Não há nada de errado que tenha feito, para além de ter vivido.

Apenas, crescemos acho.

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Capítulo 2 - Os homens não choram

 


Podiam ser vinte e três pequenas fotos, mas cada uma tinha linhas de histórias diferentes onde relatavam não só o que eu tinha vivido mas o que aquelas três almas infantis tinham crescido com o tempo. A dimensão delas era pequena, mas foram muitas coisas que mudaram desde os meus 14 anos, não só em mim, mas a neles também. Muitas das vezes, crescer significou deixar cair uma máscara de alegria falseada por um sorriso e destapar aquele pedaço negro que ficou guardado naquele recanto do coração e que não queremos que ninguém abra. Viver é fácil, mas crescer já era um desafio diferente.

Com as costas frias do encosto com a parede da minha cama, o desconforto nas omoplatas contra aquele monte de tijolo com pequenos grãos de areia a dar relevo, fez-me obrigar a deslizar o corpo para aquele emaranhado de tecido onde já me tinha revirado vezes sem conta enroscando-me de forma involuntária entre os lençóis. Coloco a cabeça na minha grande almofada em formato de chouriço, que vai de uma ponta a outra da cama para que eu me possa rebolar sem ter o medo de levar a cabeça às duas mesas-de-cabeceira que estava colocadas de forma estratégica na cama.

Tento olhar de longe as restantes fotografias ainda com os olhos turvos do sono que não teve o ciclo que devia e que o corpo merecia na realidade. Não só o António estava presente naqueles pequenos retratos em poses bastante ridículas, mas outro ser emergiu por entre duas linhas que componham cada momento. Pedro era sem dúvida a linha da direita de uma estrada com três vias, onde a só os mais velozes e radicais se aventuram em rotação máxima, desafiando a autoridade e as leis. Mesmo tendo uma estrutura baixa, o seu lado rebelde para um rapaz de 14 anos era bastante apurado, mas não deixava nenhuma rapariga indiferente. De cabelo castanho com pequenos caracóis dispersos, os olhares centravam-se nele. Aquele olho castanho batia com o olhar cerrado e malandro, que só se abria com as batidas da bola de futebol entre os pés puxando o seu lado agressivo e másculo ao de cima. Mas na aparência das coisas e debaixo de uma pela branca e de um coração com uma camada de pedra, bombeava um grande ser humano delicado, com todos os sentimentos escondidos por um muro que apenas se deixava abrir quando sentia a segurança de um forasteiro digno de presenciar e observar tudo o que ali dentro se guardava: e acreditem, guardava-se muita coisa para um rapaz com uma moldura de garanhão rebelde.

Acreditem ou não, eu sou alguém cujo futebol dizia-me muito pouco para a idade, então ser um dos jogadores era uma coisa totalmente impensável. Ao primeiro chuto que dava na bola, ponha-a em colocação baixa onde o máximo que ela iria esvoaçar seria uns 4 ou 5 metros, mas nos melhores casos. Mesmo sendo um não aficionado, o meu sedentarismo obrigou-me a escolher um desporto que me fizesse sair da monotonia dos dias de escola. A pressão de um vizinho treinador de rapazes com a mesma idade que eu para com o meu pai, fez com que eu me decidisse a juntar-me aquela equipa de futebol mesmo sendo um completo falhado na matéria (e na prática também). É logico que o medo emergiu me no exato momento em que deu o sim, até porque todo o bullying que já sofria exatamente pela minha falta de habilidade para algo que a sociedade disse que os homens tinham que ter, ergueu aquele medo de voltar tudo a acontecer de igual forma. Conformado com a situação, fui ao primeiro dia de treinos com a melhor cara possível. Olhei para as paredes gastas pelo tempo, sente-se no ar aquele cheio a terra quente onde a rega do guardião do campo fez acalmar a poeira do vento do pequeno vale onde ficava o campo. A entrada, o suor e o cheiro a gel de banho misturavam-se anunciando o primeiro balneário da casa mas também o final de um intenso treino dos juniores.

- Estás entregue, depois eu venho-te buscar as 20h filho – disse o meu pai com orgulho no olhar.

- Não se preocupe que ele está bem entregue. Entra, equipa-te e vamos começar. – com o tom firme mas calmo, fez-me sossegar a mim mas também ao meu pai.

Entrei desconfiado mas com aquela máscara muito mal posta na cara. Olhei em volta e reconhecia algumas caras que já faziam parte do meu dia-a-dia escolar, inclusive o meu primo lá estava. De certa forma foi reconfortante, porque era como se tivesse na escola, mas isso insurgia outro medo: de voltar a acontecer tudo de novo e de todos os insultos começarem novamente. Obviamente não era só os meus colegas de escola que estavam lá, mas outras pessoas as quais nunca tinha visto, o que é natural, pois andavam a estudar numa outra escola diferente. Lá estava Pedro, que era o mais sociável de todos. Não era difícil de isso acontecer, até porque a sua forma engraçada de ser fazia com que as pessoas desarmassem logo a vergonha e a timidez que tinham, o que me fez acalmar um pouco.

- Olá, chamo-me Pedro! Já sabes qual a posição a qual vais jogar? – disse num tom entusiasmo.

- Acho que como guarda-redes mas ainda não sei bem. – menti claro, não porque tivesse medo, mas porque o meu prepósito de estar ali era mesmo ser o segundo guarda-redes da equipa. Não queria sair por baixo, é normal que assim o aconteça.

- Boa, vamos la então começar que não gosto de estar parado.

Equipei-me o mais rápido que consegui, não porque estivesse aleijado mas porque simplesmente como era uma guarda-redes precisava de mais tempo para me habituar aos novos “instrumentos de trabalhão”. Quero com isto dizer que precisava de vestir mais coisas que um jogar normal necessita, com a agravante que eu nunca tinha vestido nada daquilo. Para além da tradicional chuteira, caneleira e t-shirt, precisava algo que me protege-se mangas, cotovelos mais umas calças muito justas com umas pequenas almofadas nas laterais das pernas para amortecer as quedas e acima de tudo proteger o corpo do arreado que o campo pelado teria.

Era dia de captações e por isso sentia-se um nervoso no ar entre os jogadores, o que me escapou porque a vaga de guarda-redes estavam garantidas já por duas pessoas: eu e outro colega, Barbosa. Mesmo assim, todos eles emanavam uma forte sede de competição mas penso que era, não para garantir lugar, mas para começar a jogar futebol. Isso teria que esperar.

- Vamos correr e começar o treino – expeliu o treinador, dando assim início as captações. Todos temos a ideia que isto funciona como se fosse um casting, o que é natural porque seria a forma mais normal de pensamento. No futebol as coisas não funcionam dessa forma. As captações competia avaliar várias coisas: forma de jogar, atitude em campo e o respeito para com a instituição e staff de treino. Por esse motivo, essa avaliação só acabaria literalmente no final do treino, onde toda a equipa de treinadores que componha a equipa decidia quem e em que posições ficaria os jogadores.

Corria de forma desgastada, até porque era uma pessoa sedentária para a idade, daí a me obrigar a exercer um desporto. Apesar de todo o treino ser diferenciado, até porque guarda-redes e a restante equipa tinham objetivos em campo diferentes, eramos constantemente observados por toda a equipa, até para ver o que podiam contar em campo.

O treino era duro e consistia em treinos bastante físicos: ora atirava-me para o chão, ora me levantava, sempre com o intuito de criar aquele hábito de cair. Guarda-redes em relva deve ser duro, mas num campo composto por terra e pedras era um desafio humano imenso e apesar de toda a proteção, existia sempre aquela pedra pontiaguda escondida que teimava em ferrar-me o músculo da perna. Tudo era muito árduo e sinceramente pensei em desistir várias vezes, mas era maior a vergonha do que a ambição de concretizar esse pensamento.

- Vamos agora fazer um jogo de futebol: vamos dividir a equipa em dois. Os guarda-redes estão já definidos por isso cada um vai para o seu lado.

Caminhei em passo lento pelo areado campo e pensei: é desta que eu vou desistir disto. Cambaleando todo o caminho, desviei o olhar para o cimo e prestei atenção a formação das equipas. Um a um dirigiram-se ao lado onde já estava recostado ao poste direito da baliza, onde para meu espanto, Pedro, teria sido eleito como um dos elementos que componha a equipa.

- Bora, confiança. Vai tudo correr bem! – apeliu Pedro, com o olhar frangido de jeito a mostrar a garra toda.

Era fácil reparar que toda a gente estava contente, mas eu, só queria fechar os olhos e acordar dentro do balneário, já vestido e com tudo isto já terminado. Soou o apito e o primeiro chuto saiu dos pés de Pedro. Em posicionei me no centro da baliza nunca tirando os olhos da bola. Entre os dentes pedida que a bola nunca chegasse ao nosso lado do campo, mas claro que isso não aconteceu. Não tinham passado nem dez minutos, a bola surgiu do nada e num ápice um jogador apareceu no flanco direito a grande velocidade. Nesse instante, Pedro puxou-se para o lado do direito também, estreando-se com uma entrada de carrinho de forma a travar a bola, mas a velocidade a que ia não era suficiente. A defesa tentou impedir que a bola atravessa-se a grande área, mas a rapidez dos passes aliada a boa colocação da equipa adversária, fez com que a bola viaja-se de forma limpa entre os pés de cada jogador. Por entre as frinchas da defesa, um dos jogadores solta um pontapé desajeitado mas suficiente para levantar a bola a uns 2 metros de altura. Apesar de rápida, foi nesse momento que senti todos os olhares da minha equipa e de Pedro virados para mim. Com as mãos nas coxas e de joelhos refletidos só podia contar com a sorte, já que a técnica não era suficiente para enfrentar o que estava a acontecer. Mais entortada para a esquerda e com a gravidade a favor, estiquei os braços e com o um impulso forte voei ao encontro da bola. Sorte ou azar, a bojarda acertou-me mesmo no centro da barriga, fazendo-me encolher mesmo durante o voo e cair da melhor forma que podia para que a bola não passa-se da linha da baliza. O ar de surpreendidos de todos foi notório, até porque ninguém esperava uma coisa dessas vinda de uma pessoa que não sabe jogar nada, mas Pedro foi diferente.

- Eu sabia que conseguias. Vá bora, não podemos perder tempo, temos que ganhar isto.

Claro que fiquei orgulhoso, até porque eu próprio duvidei de mim mesmo. Mas não se deixem enganar: todo o resto do jogo foi uma lástima. Resultado final? Quatro para equipa adversária, zero para a nossa equipa.

- Não te preocupes, tiveste bem. É normal, nunca tiveste nenhuma experiencia como guarda-redes.

Eu sabia disso, aliás, não senti qualquer tristeza por causa do resultado. Estava bastante orgulhoso do que tinha feito.

Calejado das pernas, nunca sonhei que o que estava por baixo fosse hematomas grandes e arranhões dispersos. Não tinha essa ideia porque a terra era a minha nova amiga e por isso tinha o corpo todo coberto de uma fina camada de sarro que o corpo agarrou. Molhado e coberto de terra, foi me mais difícil tirar a roupa do treino do que todo o exercício. Corri para o banho, para que não fizesse o meu pai esperar. O que eu não sabia, era que ele me tinha visto parte do treino.

- Filho, vi o teu treino. Portaste-te bem.

A vergonha fez-me ficar sem palavras para o que acabara de ouvir do meu pai, mas por outro lado surpreendido, porque não esperava ouvir o meu pai a dizer aquilo. O meu pai conhecia toda a gente na aldeia, o que me fez esperar pelo terminar da conversa que também tinha lá o filho. Pedro foi o primeiro a entrar no balneário, mas era sempre o último a sair. Existe todo um processo daquele vaidoso que fazia demorar mais do que o normal, mas não era o único. De saco em ombros saiu com um ar visivelmente cansado e um enorme vermelhão nas bochechas que mostra todo o desgaste que ele teve durante o treino.

- Boa noite, vemo-nos quinta-feira. – disse subindo a rampa de saída do campo de treinos, onde se sentou para descansar, enquanto esperava pela mãe que o viria buscar.

A conversa entre o amigo e o meu pai continuava sem fim a vista e como estava farto ouvir aqueles temas de adulto não fiquei indiferente a solidão momentânea de Pedro. Subiu o mais depressa que conseguia, mesmo tendo os músculos a ceder de todas as quedas e pedras. Aproximei-me com cuidado, não sabendo da sua reação e disse a primeira merda que me veio à cabeça:

- Então Pedro, a tua mãe esqueceu-se de ti?

- Ah não, as vezes atrasa-se. A minha mãe trabalhar numa fábrica e tem turnos. Nem sei bem se ela vem-me buscar agora ou mais tarde mas não há problema, aqui não vou ficar.

Tímida, a conversa avançou sem relevo e importância, até porque não passava-mos de dois estranhos miúdos. Claramente o que nos ligou ao momento foi o facto de ambos sermos animados, se assim não fosse, a conversa tinha morrido quando começou.

- Vamos filho, está na hora. – gritou o meu pai.

- Fica bem, vemo-nos no próximo treino.

Passaram-se treinos e treinos e claramente não estava a melhorar a minha técnica. Não era fácil, até porque ser guarda-redes é muito ingrato: se defendes, és o maior, se marcou és o pior. Mas eu viva a bem com isso, até porque não estava muito interessado com a opinião dos outros. O meu objetivo era o desporto.

Como eu e António eramos como unha e carne e por isso todo o tempo livre, mesmo em casa era passado a conversar sobre parvoíces, a ver as miúdas na rede social do momento e eu a explicar o quanto odiava o futebol mas ia com toda a força.

Falei-lhe claro de Pedro e de toda aquela experiência que tinha passado, enaltecendo claro as partes onde a minha cara roçou pelo chão vezes sem conta. Claro que nos ri-mos muito, até porque ele percebeu o exagero que aquilo estava a ser, mas também o quão divertido parecia ser. Não era de todo, mas é normal achar-mos estas coisas quando não são connosco que acontecem.

Quando descrevi Pedro, António entendeu logo quem seria a pessoa que falava, até porque a vida encarregue-se por vezes nos pregar partidas engraçadas e acontece de que linhas que pensamos serem distantes, estarem mais próximas do que antes. Pedro era um ano mais velho que António, mas os infortúnios da vida fizeram que Pedro se atrasa-se no seu normal percurso escolar, fazendo recuar para o mesmo ano escolar que António. Claro que isto fez despertar uma certa curiosidade em explorar mais e de entender o porquê das coisas. Se calhar não havia uma razão aparente ou mesmo razão nenhuma, mas na minha jovem cabeça não entendia: um rapaz aparentemente inteligente, ter reprovado um ano era estranho. Muitas devem pensar: mas que têm ele haver com isso? Eu também me perguntava muitas vezes isso. Se calhar muitos encaram isto como coscuvilhice gratuita. Eu apenas via aquilo como “Como posso eu ajudar?”.

António e eu partilhávamos da mesma linha de pensamento, até porque esse era um dos motivos que nos unia, ter-mos uma única forma de pensar e uma vontade gratuita de ajudar. Como referi muitas vezes, a Internet unia as pessoas e isso foi o que nos uniu a Pedro. António era claramente uma pessoa sociável e como bom falador e amigo tinha contacto de toda a gente.

Foi o messenger que nos aproximou a Pedro e como era natural, o futebol foi sempre um ponto de partida para conversas sem um ponto de chegada. Foram horas de conversas, confissões e discussões, que começaram por um contra-ataque mal entendido por um finalizar de golo bem assente no coração. Era difícil de chegar até um profundidade onde o coração começava abrir as portas mais sombrias e escondidas, mas acreditem que o que iam encontrar lá eram coisas bonitas e cheias de amor para dar. Atrás de uma dureza e brincadeira, escondia-se um miúdo desejoso para ter uma família, por ter uma namorada a quem escrever aquelas cartas lamechas, para fazer aquelas surpresas e a quem partilhar aquele beijo apaixonado.

Na ingenuidade infantil que reinava pela aquela altura, pairava a vontade de andar-mos a saltitar de casa em casa. Afinal, era a forma que tínhamos de passar o máximo de tempo que conseguimos. Nem sempre todos podíamos, mas sempre que os três conseguíssemos nos juntar, não havia nada que pudesse alterar esse encontro.

António demarcou-se um dia desse encontro e como era verão e com férias passadas na casa onde cresci, decidi não adiar esse encontro com Pedro. Mesmo sendo distante, peguei na minha bicicleta naquela manhã de segunda feira e fiz-me a estrada. Eram cerca de 40 minutos de bicicleta, mas o tédio que sentia na altura era tão grande que nem o cansaço que ressentia nas pernas me fez parar de pedalar. Foram agoniantes todas aquelas subidas que fazia, mas eu sabia que no fim, o destino ia me recompensar por todo o caminho que percorria.

Pedro tinha uma casa mesmo no cimo de um pequeno monte de uma vila próxima da minha aldeia, o que tornava a casa dele um pequeno e calmo paraíso dentro de uma vila agitada e movimentada. Ao pé da casa, um pequeno monte de carvalhos e eucaliptos tornavam o ar fresco e carregado de cheiros e aromas frescos e silvestres. Era claro o som dos pássaros, mas o que mais se sentia era o uivar dos cães vadios que habitavam naquele pequeno monte. Parecia tenebroso, mas era mais calmo do que sombrio. Pedro e os seus pais eram pessoas humildes, com uma casa construída com o suor do trabalho de todos os dias. Por vezes esse trabalho era estendido por turnos seguidos para que tudo se mantivesse. A casa estava inacabada mas não incompleta: tudo parecia inacabadamente perfeito. Lembro-me de quão quente estava esse dia mas aquele atijolado chão mantinha aquele sótão a uma temperatura aceitável. Sempre de computador ligado, a primeira coisa que me fez foi mostrar aquela mistura de música que havia feito no dia anterior numa aplicação informatica super avançada. Para ser sincero achei horrível, mas acho que ele o sabia.

Eu adorava computadores e por isso tudo o que fosse eletrónica ou informática eu sabia o que estava a falar. Pedro era bastante bom, mas sabia que a minha paixão por computadores fazia-me perder muito tempo a explorar e a conhecer coisas que outros não saberiam.

- Tenho uma coisa para te mostrar e vou precisar da tua ajuda - o olhar envergonhado de Pedro fez me inquietação até porque não era normal, era uma pessoa bastante segura. Entre os clicks do rato, afundou-se entre pastas e pastas até chegar aquele ficheiro escondido nas entranhas digitas do computador.

- Não te rias de mim por favor. - nunca o iria fazer. Aliás, estava com demasiada seriedade do que vontade de me rir. Pedro liga as colunas e abre o ficheiro que apenas dizia “surpresa”. Um pequeno video com pequenas imagens amorosas e cheias de paixão, com uma música de hip-hop calmo e romântico e umas transições pobres, tornaram aquele video tão recheado de paixão que era impossível melhorar aquilo. Como era possível melhorar a carta de um romântico para a sua amada. Vi a vergonha de Pedro reflectida e eu a surpresa no meu olhar. Fiquei tão preplexo quanto ele ficou de envergonhado.

- Não precisas de ficar assim, está muito bonito o video - não menti claro, estava tão querido o video que não tinha coragem de apontar um único defeito. Mesmo imperfeito, o video era a demonstração mais fidedigna do que ele sentia e não é justo para ninguém melhorar isso. Reparei na pequena lágrima no recanto do olho e aí não me contive no abraço, até porque senti que havia mais alguma coisa que ele tinha me para me contar. E tinha mesmo.

Mesmo os mais duros corações sofrem e isso era o que mais me custava ver nele: aquela lágrima que visse no canto do olho era o coração cheio de um rio de tristeza, angústia e mas carregado de pequenos peixes alegres, apaixonados e cheios de vida. Foram bastantes aquelas lágrimas que foram expelidas dali. Todos sabemos o que um coração apaixonado no silêncio dos pensamentos guarda e isso nunca poderá ser contido. Não conseguimos guardar um mar dentro de nós porque se não vamos acabar por ser consumidos por ele. Pedro sabia disso, mas todos em sua volta eram homens. E os homens não choram.

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Capitulo 1 - O despertar


Começo por sentir uns pequenos telintares na palma esquerda da minha mão a subir lentamente pelo meu antebraço. Abro o meu olho lentamente no escuro, enquanto me destapo, de forma desajeitada, cada camada de lençol da minha cama. Enquanto o peso de um dos olhos foi vencido com esforço, o outro abriu-se de forma mais desprovida e sem medos. Recosto-me na minha parede da cama, tapando a minhas pernas para que o frio não me criasse resistência à minha saída do meu recanto, aquecido por todas as camadas grossas de tecidos colocadas estrategicamente para que todo o frio se dissipasse.


Apesar de o relógio bater as 5 horas da manhã de um sábado, o meu coração cavalgava a passo largo dentro de mim. A ansiedade de mais um dia começar era grande, mas a vontade de vencer era e o medo de falhar era o que prevalecia dentro de mim


Á velocidade que o coração ia disparado, o sangue propagou-se rapidamente para cada pedaço do meu corpo. Lentamente, aquela dormência que sentia esfumaçava-se.


- Bom dia braço! – gritou a minha mente.


Apesar de o meu corpo ter-se involuntariamente cortado a minha ligação do sangue com o resto braço, fez com que a vontade de dormir mais quatro horas ficasse adiada para o dia seguinte. Digamos que me pareceu uma boa desculpa para não voltar a ter que sonhar com o que não desejava.


Sendo 10m2 um espaço pequeno para um rapaz com uma altura considerável, havia espaço para guardar todo o tipo pequenas “linhas de pensamento” que o tempo esculpiu. Eram curtas essas linhas na verdade, mas eram intensas e carregadas de sentimentos.


Acendo aquela pequena luz que pende por cima da mesa-de-cabeceira e à volta vejo tudo ainda desvanecido. Esfrego-o os olhos e tento novamente repassar o olhar por todos os cantos. É difícil não parar naquela foto de quando tinha 14 anos e não me lembrar da minha inocente infância. É óbvio que há sempre aquela tímida lágrima que fica no canto do olho sempre que viajo para aqueles tempos em que nós os três éramos como unha e carne, livres de qualquer responsabilidade, mas comprometidos com uma amizade tola e quase sem limites. Vinte e três fotos são o total que um pladur branco consegue suportar de linhas e de momentos diferentes dos tempos em que o tempo era espremido até um ralhete da minha mãe soltar-se. O verão era curto para todos os planos feitos, onde eram previamente planeados e repensados para que todos coubéssemos em cada um deles, mesmo que o tempo fosse reduzido a 5 minutos. Esse tempo por vezes era colmatado por horas de mensagens racionalizadas ao limite, de viagens pela internet restringidas aos períodos e por minutos de chamadas feitas pelo telefone para que no dia seguinte fosse possível repetir a dose.


Ainda hoje é difícil escolher aquele lugar como predileto, mas sem dúvida que ainda hoje, passados doze anos, só um lugar se manteve imaculado pelo tempo. Mesmo tudo ter ruído, lá estava aquele muro de pedra que teimamos sempre em ir de bicicleta.


O gosto por animais era sem dúvida notório, até porque nenhum de nós tinha um, mas aquele cavalo branco que pastava sol sobre sol era o nosso predileto e protegido. Pousávamos desajeitadamente as bicicletas no chão, o tempo rugia.


- CUIDADO COM ELE – gritou António, precavendo-nos da irritação do nosso cavalo – Ele hoje está agitado.


António viva ali perto, tinha a possibilidade de visita-lo todos os dias, o que era uma bênção para ele, porque adorava tanto aquele cavalo como o sitio. Apesar de estudar numa escola diferente da minha, vivíamos todos na mesma terra, o que facilitava a convivência. Engraçado era a história de como nos conhecemos.


No desconhecimento total, António e eu estávamos enamorados pela mesma rapariga, Maria. Claramente bonita, para uma rapariga de 14 anos, Maria ainda crescia, mas o seu corpo já esculpia o ideal de nós os dois. De cabelo claro brilhante, com os olhos castanhos, mas ligeiramente brilhantes, mostrava a simpatia e o carinho pela vida, mas a seu cuidado com a beleza externa era enaltecida por pequenos brincos de floreados. Partilhávamos em comum a mesma sala de aula, mas isso nunca foi vantagem para mim. A inocência de Maria criou um encontro entre mim e o António inesperado, mas Maria sabia que isso podia acontecer. Tendo mesmo assim, criado o mesmo hora e local de encontro para ambos, é claro que a picardia gerada por ela criou uma espécie de amor ódio entre mim e o António. Azar da vida, a minha bicicleta fintou-me a vontade de guerrear pela minha bela amada. Mas a ajuda de António foi preciosa mesmo naquele momento o orgulho estar a berrar alto e transparecer para a cara.


- Vá, anda lá a minha casa. Eu posso-te ajudar lá – disse de forma doce António, sem qualquer raiva ou remorso no olhar para o seu rival.


Concedi o seu pedido, sabendo que não tinha alternativa, até porque tinha que voltar a casa antes de jantar.


Maria despediu-se de nós com um levo beijo no rosto a ambos, o que para mim e para ele, um com 14 e outro com 13 anos, era uma grande vitória. Eu esbocei um sorriso interior e ele não conseguiu disfarçar aquelas bochechas rosadas e aquele ar de parvo apaixonado com um sorriso peculiar, mas não exagerado


Ficava a cinco minutos, a caminhar, desde o átrio da igreja até ao portão da casa dele. Não consegui desfarçar a minha irritação pelo que ela me tinha feito, mas a minha preocupação do de não conseguir recuperar a minha bicicleta fez dissipar aquele pequeno ódio.


- Vai ser difícil, mas penso que temos tudo o que precisamos aqui. – disse o António observando a bicicleta como se percebesse do que estava a falar.


- Bem, espero que sim. Esta bicicleta esta me a dar cabo de mim. – disse-lhe com o ar mais simpático que consegui, até porque, no final de contas, precisava dele.


António e eu deitamos as mãos a obra, mesmo não percebendo nada do assunto. Entre o spray, ferramentas e batidas na bicicleta, a conversa flui que nem um barco em alto mar em dia de boa rés. Parecia que nos conhecíamos desde que ambos nascemos. Tal como a conversa, as horas piscou-me o olho deixando a conversa a marinar.


- Obrigado António, já me ajudaste muito.


- De nada. Mas passa aqui amanhã, afinal estamos de férias e moramos perto um do outro, podíamos ir dar uma volta de bicicleta.


Consenti claro, era difícil não querer passar tempo acompanhado até porque as férias estavam a começar e os planos também eram escassos. Mesmo sendo contados, as mensagens escritas pelo telefone era o meio mais fácil de manter contacto. Não eramos ricos, mas a ambição de estarmos tecnologicamente avançados fez com que ambos mos tivesse um telefone cada um, que apesar de básico, servia o prepósito.


No dia seguinte, era 10 horas da manhã e o sono batia na minha cabeça que nem tambores em dia de festa. Apressado tomei o meu banho esfregando me ferozmente todo o corpo. Apanhei a primeira toalha que tinha ao pé de mim e sequei-me o desenfreadamente deixando os detalhes para mais tarde.


«Estou atrasado caramba» e tinha razão, já batiam as 10h15 e o António já esperava por mim. Ferrei um pão e desci as escadas deslizando me pelo corrimão. Sento me na bicicleta e apronto-me para sair de casa o mais rápido que consegui. Eram 10 minutos que nos separavam em pedal de ciclista profissional, mas aquela subida era indeterminável e venceu-me.


De travão, fiz uma razia ao moro, mostrando a minha habilidade de bicicleta, mas senti que alguém estava do lado daquele muro de dois metros de altura, fazendo subir a vergonha até a cara.


- António, está aqui um amigo teu. – Gritou a mãe de António num tom docemente colicativo – Olá Bruno, entra! – disse colocando um sorriso tão genuíno e afável que nem consegui agradecer.


Subi o degrau de bicicleta e inconstei-a junto ao muro da curta varanda que fazia um pequeno resguardo para a chuva, mas de embelezamento para uma das entradas. Aí ficava o escritório da casa, que na realidade era o espaço de António, onde a televisão em tom alto fazia anunciar desenhos animados. Era um espaço pequeno, mas tinha tudo o que mos precisava para passar o verão de forma divertida.


- Bora Bruno, vamos dar uma volta de bicicleta. – disse António entusiasmado.


Não recusei claro, parecia me misterioso, mas promissor. Acho que o mistério de certa forma nos move, fazendo a curiosidade fervilhar na alma.


- Cuidado aos dois, a estrada está bastante perigosa por estes dias. E levem um chapéu que o sol está forte!


Este lado protetor têm uma razão de ser e vêm com algum sentido de ser. António era o único filho desta mãe que sofreu muito quando este nasceu. As doenças e a prematuridade obrigaram a esta mãe a proteger o seu filho e a temer a vida dele, o que é normal dada a circunstância. Quem olha para esta mãe vê demasiada proteção e medo, mas eu não via isso nela. A desprovida falta de maldade era visível e o seu lado doce para com as pessoas em volta sem pedir nada em troca fazia tocar o coração de qualquer um mesmo daquele mais duro coração e frio. Era impensável não expressar um sorriso quando a sua preocupação imanava não só no filho, mas as pessoas em volta.


Pego na minha bicicleta, verde relva e ligeiramente mais alta que de António, porque a sua estrutura era mais baixa, mas a sua solidez requeria uma bicicleta mais massuda. Apesar de preta, o seu brilho denotava cuidado que ele tinha nela, até porque não era para fazer com que se tornasse mais nova do que era, mas sim porque ele oleava-a sempre que podia, mas fazia-lo sempre de uma forma desajeitada.


Com a pedalada forte, toda aquela lubrificação que serviria um prepósito, não seria esperar um ruido forte sair dela, mas cinco anos de velhice e de muitos km é normal que ela se ressentisse nas partes onde já nem o óleo valia. Mas isso não o constrangia, bem pelo contrário, fazia-o rir sempre que cada ranger fazia. A minha era bastante velha, mas já existia durante algum tempo, até porque já passou de primo para primo e o desgaste era demonstrado na pequena ferrugem entre as manetes do travão. Mas não me fazia envergonhar, até porque no fundo o que interessava era que ela me acompanhasse e acreditem, acompanhou-me até aos dias de hoje.


- Estamos quase lá, vais ver que vais gostar – arfava António sem nunca se esquecer sorrir.


Em cinco minutos fizemos o caminho até ao destino, e mesmo sendo um curto percurso o que era crucial aos dois era fazer todo o caminho de bicicleta, nem que fosse para cruzar a estrada. Isso mostrava a imponência de dois jovens másculos que queriam impressionar os outros (digamos que queríamos impressionar as raparigas e mostrar a nossa independência, o que não nos fazia valer de muito).


Depois de uma travagem abrupta onde o som dos meus discos ecoou naquela velha estrada, senti as minhas rodas a raspar numa num chão de gravilha disperca. Bastante presente era aquele cheiro a estrume novo que fazia antever um campo preparado para um novo cultivo.


- Chegámos, não demoramos assim tanto. – Saltou da bicicleta e encostou-a ao muro que parecia não ser seguro até porque parecia velho e prestes a cair. – Encostas aqui a bicicleta, ninguém passa aqui por isso e está visível para que ninguém se encoste a elas.


Confiei claro até porque o tom seguro e firme criou uma confiança suficiente para não pensar nas consequências que poderiam ter em abandonar os nossos veículos ali. Que motivos tinha eu para desconfiar?


Nesse instante, António saltou para cima do muro e sentou-se, o que me fez dissipar o resto de insegurança sobre aquela decisão. Ergui o olhar por cima do muro que era mais curto do que aparentemente se avistava, era visível aquele musgo velho e carregado de pequenos insetos onde preenchia cada pequena falha que já demonstrava. Apoiei os braços onde seria menos desconfortável dar o impulso necessário que o corpo subisse, mas todas as irregularidades e pontas pontiagudas que tinha fizeram com que a escolha se resumisse a ter um pouco de dor.


Sentei-me ao lado de António onde a sua expressão era séria até porque no momento estava pensativo, mas a sua calma alegre no olhar mudava o cenário, mesmo tendo mergulhado na imensidão dos seus sentimentos e pensamentos


O sol erguia-se em calmo, mas forte, onde já beijava o lugar que parecia esculpido por um filme de Hollywood, parecendo que cada pedaço tinha sido colocado para que toda a harmonia daquele lugar fosse o mais natural e balançado possível.


Um pasto imenso, com uma verde relva viva e fresca parecia acabada de nascer daquela terra adobada peles fazes dos animais de pasto. Pequenas flores silvestres roxas brotavam entre as verdes pontas daquela rústica relva que cada vez que se aproximava dos nossos pés era mais presenciada por uma terra pedrulhenta mas bastante mexida pelos animais que ruminavam por ali alinhando o nível do relvado todos os dias. Levantei os olhos no horizonte e senti que tinha entrado num outro espaço onde a ordem, a beleza e as palavras não chegaram, mas deixei que o coração guiasse meu olhar. Dentro desse pequeno pasto, via-se claramente pequenos montinhos que onde os animais caminhavam com a calma suficiente para acalmar a alma e os sentimentos de todos que ali parassem. Por cima do sol, uma árvore imensa e centenária glorificava aquele pequeno monte, o mais denotado de todos. Natural e estrategicamente colocado por baixo do sol, só consegui ver a sua imensidão escura e envelhecida onde o sol fez com que as suas cores fossem escondidas por um sombreado da manhã que erguia calorosa. Claro que isto não podia de culminar com uma peça fundamental que tornava aquele lugar mágico e saído diretamente de um quadro sentimentalista. Com uma cauda desajeitada, um vadio cavalo cor beije corria sem destino, com passadas cansadas, mas gloriosas. O relinchar forte marcou a sua posição no horizonte que de certa forma dignificou aquele lugar, mas o seu cansaço levou a tomar o lugar debaixo daquela majestosa árvore secular, aproveitando o trabalhado sombreado que o sol criou desprovido senso de superioridade. Era difícil uma imaginar uma árvore mais sumptuosa, mas mais árduo era encontrar um lugar mais harmónico que aquele que pode ver.


- Então, o que achas do lugar? É bonito, não é? – António cravejou-me o olhar inocente, mas bastante sentido.


- Não sei mesmo que dizer, acho lindo. – Fiquei embasbacado com aquela magnitude.


Era difícil não se deixar levar pelo lugar e a conversa segui o rumo ao mesmo nível que aquele lugar se deixava clarear pelo sol que se levantava para aquela tarde de junho quente.


A conversa fluiu como o vento que tentava arrefecer de forma calma os mais calorosos corpos. E quanto mais se sentia aquela brisa mais aquelas duas juvenis almas contavam os mais profundos medos, ideias e planos. Os ouvidos focaram-se nas palavras, mas os olhos focaram-se no que envolta seria a paisagem de uma vida.

 

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