Existem cartas que ficaram perdidas no tempo, guardadas para serem enviadas mas onde a cobardia do momento impediu que fossem enviadas. Deixámos a tinta escorrer nas linhas, deixando que o coração tome conta da mão onde o coração cuspe tudo que acumulou: lágrimas, sorrisos, momentos, abraços. Hoje vou expondo cada momento na esperança que ela chegue, não ao verdadeiro destinatário, mas ao vosso coração.

20/01/2021

Capítulo 3 - Apenas crescemos

 


Posicionada em cima da grande cómoda, mesmo na entrada do quarto, repousava a minha maior prenda pintada a carinho, que eu mantinha, e que ainda hoje mantenho, estrategicamente posicionada para a cama para que todas as noites, o meu olhar se desvanecesse com aquela imagem. Passaram-se os anos e sempre que acordo o levanto, aquela fotografia ficou para imortalizar o sentimento que hoje perdura em mim como ainda fosse naqueles dias.

Havia sempre uma vela acesa que me fazia trazer a calma dos dias turbulentos, mas a vela estava ali não para que o meu sono chegasse mais rápido, mas para que a sua luz iluminasse aquela pequena memoria.

Vão sempre ficar ali, os meus dois melhores amigos da vida, onde os possa olhar sempre para que todos os dias me lembra: as coisas quando são partilhadas são mais fáceis e que não somos melhores se vivermos sozinhos; não somos ninguém sem ninguém; não somos mais fortes a sós. Mesmo que hoje, não saiba mais nenhuma notícia deles, nunca me vou esquecer de cada pedaço de história que tive a sorte de ouvir, desde a mais tola e sem sentido a mais profunda e triste que avassalava cada um de nós.

Hoje revisito cada espaço, relembrado de cada riso e de cada momento. Muitas pensam que está na altura de deixar eu ir estes pensamentos, memórias e pessoas até, mas não posso. Hoje sou o rapaz que sou porque cada um deles me trouxe um pedaço de mim para a tona do adulto que sou hoje e bem ou mal, esquecer-me deles é esquecer-me do que sou. Não posso deitar para trás todas estas memórias, sendo boas ou más, porque elas sou eu.

Cada vez que penso no que aconteceu, não consigo perceber e dar um motivo para que consiga fechar esta história de uma forma que possa arquivar na minha memória para a revisitar sem sofrer, até porque isto tudo se parece a um corpo que morreu mas nunca apareceu. Sabemos sempre que acabou, mas nunca vamos descansar até perceber: porquê?

Claro que sempre tentei ir a procura desta perda e esta procura levou-me sempre a lugares que a memória apenas tinha já um deslumbre escasso e vazio. Mais do que as pessoas, os lugares cravaram a história tornando-a imortalizada e sempre disponível para ser revista. Não faz sentido aqueles lugares sem as pessoas, pensava, mas hoje, penso que aqueles lugares fazem mais sentido do que as pessoas.

Sempre que penso: qual foi o momento que achas que tudo se desmoronou? Acho que não houve um momento, até porque sinto-o que não houve nada que pudesse ter feito de diferente para que todos continuássemos a falar, não como antes, mas como no início. É aqui que a minha mente viagem para todos os momentos em que tivemos juntos, fazendo as noites o nosso momento de confissões obscuras e cheias de receio, mas sabíamos, todos, que ninguém ia entrar nesse sombrio lugar sozinho.

A casa de Pedro era a predileta para os nossos momentos de descontração, até porque era a casa onde mais espaço tínhamos mas também onde mais liberdade tínhamos para partilhar tudo o que nas semanas anteriores aconteceria. Eramos todos rapazes jovens e claramente o tema que mais vinha à tona era todos os amores que tínhamos, cada um com a sua amada. O riso surgia quando se explicava a sensação de ter as nossas bocas encostadas a nossa amada donzela, até porque a parvoíce inocente surgia discreta mas era normal, até porque tudo era uma novidade para nós.

Claramente não estávamos preparados para ter uma relação, muito menos eu, até porque isso nunca esteve claro na minha cabeça, o que me fazia calar nos momentos onde Pedro e António partilhavam tudo o que sentiam.

Pedro pela sua namorada Ana de cabelos negros lisos com uma pela branca mas não pálida, uns olhos pequenos mas cheios de uma cor preta reluzente, onde nos intervalos esquivavas se para sua casa para encher e surpreender a sua amada com amor e carinho, dizia. Claro que nós sabíamos que ele tentava mais alguma coisa, até porque nas entrelinhas do pensamento dele, era evidente que tinha perdido a virgindade com ela. António estava caído pela sua Maria que apesar de nova e citadina era uma rapariga que imanava uma simpatia única que fazia maravilhoso contraste com o seu lindo cabelo loiro e os seus olhos cor de água. Era difícil não gostar dela.

Todos se perguntavam: então e tu? Eu? Eu estava desapegado, confuso e distante de sentimentos amorosos por alguma rapariga. Eu era preenchido por complexos estúpidos e sem sentido, mas que me fizeram “bloquear” os meus sentimentos por alguma rapariga, pelo menos era o que eu pensava. Naquele momento e nos meus 14 anos, era o que fazia sentido. Pelo menos era a única explicação lógica. Claro que olhava para eles com inveja, até porque era o “patinho feio” deste pequeno grupo. Obviamente, só eu é que tinha este sentimento, mas eles não me viam assim.

- Tens que falar mais com elas, tens que ser tu próprio. – Respondia António.

- Sim, usa a internet para conquista-las, vamos tirar umas fotos novas para pores, vais ver que elas vão cair aos pés – empolgado Pedro, já pegava na máquina fotográfica dos pais pronto para uma sessão de modelismo bombástico.

Não estava muito empolgado com o assunto, até porque fotos não era a coisa que mais gostava. Apesar de ter uns olhos verde alface de invejar e um cabelo claro, achava sempre que nada me ficava ao nível do que era e ser eu próprio não estava a ajudar. Na loucura da idade, Pedro era o mais metrossexual de todos, até porque o cabelo não podia fugir um milímetro do que ele idealizava. Sempre esticado com cuidado e carregado de gel para enrijecer todas as partes, o alisamento do grisalho cabelo que tinha fazia-lhe tornar uma espécie de surfista sul-africano mas de tom branca.

Já de prancha em ponho, pronto para passar a ferro o meu encaracolado cabelo, sentaram os dois frente ao espelho, onde parecia que iam-me fazer um “extreme make over” no meu visual. Foram duas horas de sofrimento, onde um escolhia o local para tirar as fotos o outro alisava-me o cabelo com a determinação fincada, como se aquilo fosse para ele. Depois de uma criteriosa escolha, começou a sessão: “Vira-te para o lado”; “Olha para cima”; “Mete o braço no joelho como se tivesses a pensar”. Foram dezenas as fotos que aquela máquina tirou, uma das primeiras digitais que Pedro tinha e que guardava para estes momentos seus, que foram e acabaram por ser nossos.

Se acham que isto foi doloroso, imaginem a quantidade horas que foram precisas para escolher cada uma das fotos que todos tirámos naquele dia. A escolha não era fácil mas o critério era simples: a foto mais gato de sempre de todos. O consenso não era fácil, até porque era uma decisão que os três tinham que fazer. Para mim era me indiferente, mas para eles era como se aquela escolha fosse de vida e de morte.

- E se tirássemos os três uma foto? Não temos nenhuma nossa. – disse eu, esperando um não.

- Claro, boa ideia. Bora, vamos la tirar isso – responderam todos

Fomos para a frente de uma espelho, avaliar o visual. Eu parecia um leão despenteado com uma juba em palha, António com um cabelo desalagado aparentava ter dormido horas e acordado violentamente e Pedro um ouriço-cacheiro penteado mas com um estilo peculiar. Apontou a camara e “flash”… Ficou ali o marco histórico tosco de três amigos a ajudarem outro. Ou em versão resumida, é foto central que olho continuamente nesta minha insónia teimosa.

Se a foto não fez furor nas redes sociais, podem ter a certeza que hoje, uma foto de 10 por 10 centímetros, tem mais história que todas as páginas que possa escrever hoje e em diante. Podia resumir dizendo que aquilo tudo foi para me ajudar, mas eu diria que aquela foto era o símbolo que as coisas quando são feitas do coração, não tem preço nem valor, até porque tudo começou pela minha insegurança e aquela deslumbrante foto era mais do que isso.

Pensam que eu não adotei aquele estilo durante algum tempo? Claro que sim, nem o Pedro e António deixavam que mudasse, nem um bocadinho, porque aquela ia ser a forma de um desencalhado arranjar a donzela do seu castelo encantado. O problema é que eu era o único que não estava encantado e eles nem se apercebiam disso. Fazia sempre questão de desenhar um sorriso sempre que se falava de raparigas, mesmo não sentindo que era esse o facto de me sentir infeliz e amargurado.

Sempre partilhamos tudo, todos os medos e sonhos, até porque a confiança que todos depositávamos era grande que o medo de sermos rejeitados dissipava-se. Mas isso aplicava-se porque eram medos “normais”. Os meus não era, até porque eu não os entendia.

Por não saber do meu rumo amoroso, havia uma coisa que eu sabia: que eu gostava destes dois como se fosse do mesmo sangue que eu e portanto não havia espaço na minha cabeça para ocupar mais do que eles dois. Apesar de ter uma irmã, que odeio e amo ao mesmo tempo, um irmão para brincar foi sempre um desejo que tinha desde pequeno, que nunca pode ter porque a minha mãe e pai não tinham orçamento para cuidar de mais um filho, apesar de gostarem muito. Tendo essa lacuna, tentava passar para eles que todo que fosse tormenta, medo ou angústia, mesmo a mais incompreendida, não iria fazer com que me deixasse desencantar por eles.

Tive várias provas disso e por isso olhei sempre para eles como um pilar bem soterrado na minha vida. Existem vários momentos que me marcavam mas houve dois que me marcam ainda hoje.

Cada um deles tem uma personalidade diferente, mas penso que era isso que fazia com que as coisas fossem manifestadas de maneira diferente, mas não deixavam de ser reveladas. Pedro era o mas duro de todos e apesar de eu ter referido que para ele um homem não chora, mas um dia esse homem quebra. E aconteceu. Pedro contara-me que a relação dele com a sua amada estava por um fio e que a iminência de acabar podia estar para breve. Sem demoras, aprontei-me para tentara perceber o porquê e para tentar ver o que falhou nesta fresca relação. Nessa noite de verão, Pedro fumou um cigarro no desgosto da noite que tinha “roubado”. Aí vi a gravidade da situação, até porque na inconsciência do ato a mãe podia o ver e aí seria um desgosto para ambos, apesar que para ele o mundo acabou estava ruido sem a sua amada do sei lado. A curiosidade fez-me experimentar aquele cigarro mas claro não correu como idealizava na minha cabeça: odiei aquilo.

Nada consolava aquela alma, que apesar de não brotar uma única lagrima o seu mundo estava inundado de uma amargura só. Ana era uma rapariga dos pais e o Pedro o rebelde que qualquer pai queria ver a sua filha distante. Isto originou uma confusão e medo em Ana que no calor do momento decidiu acabar aquela bonita relação que ambos tinham já há alguns meses mas o risco de os pais odiarem-no a ele fizeram ditar a decisão dela. Ele não compreendeu, como eu não iria compreender também.

Não consegui arrancar nada, até porque o assunto era constantemente desviado para outras coisas. O computador era uma boa distração para os dois, que passávamos a noite a ver filmes de ação e por vezes uns filmes não recomendados de adultos. Sorria sempre mas eu sabia que era tão falso quanto o meu sorriso. Era difícil de lá chegar, mas com Pedro, o caminho do coração era difícil e tinha que ser feito com cuidado, atacando de forma feroz e implacável. Claro que isso aconteceu.

Já batiam as duas horas da manhã e o peso dos olhos já se fazia sentir. Fomos para o quarto dele, que ficava a um lance de escadas desde o grande salão que ficava na parte de cima da casa. Como éramos dois a gestão da dormida era fácil, porque Pedro tinha uma cama de casal e não nos sentíamos estranhos a dormir lado a lado, até porque que mal faria? Não resisti em puxar por ele e perguntar onde é que ele e Ana se envolviam. O ponto de viragem apareceu em tom tremido. Mostrou me a carta que lhe tinha escrito e que nunca lhe tinha dado. Li cada linha como se aquilo fosse para mim e admito que o meu coração gelou, não porque tinha alguns erros, mas porque o que espelhou foi um coração cheio de amor e de sonhos a dois, num tom adulto e com sentido. Ali percebi que cheguei onde queria e era a hora de arrancar toda a água que aquele coração tinha dentro. Com a cabeça colada na almofada e com olhar cerrado no teto, Pedro falava do que aconteceu, do que lhe fez, dos presentes, das surpresas, das zangas e dos beijos. Eu apenas ligava a conversa, fazendo-o mergulhar mais dentro do coração.

- Luta, dá tudo que tens se gostas dela. Não te arrependas de seres tu. – disse eu, com uma voz rouca.

Pedro desmoronou-se em lágrimas, que acumularam-se durante dias, porque a vergonha assim o obrigava. Naquele desespero, o meu coração despedaçou-se com o dele. O meu instinto do momento foi dizer “não chores mais” enquanto lhe limpava a água dos olhos, mas se calhar o meu abraço foi o mais sensato gesto a ter para com um desamparado amigo. Parece estranho, dois homens abraçados nê? Na minha cabeça, eram duas pessoas onde uma delas se desmanchava em lágrimas e não havia mal nenhum no ato. Gostava que fosse comigo. Não pensei e agi.

A segurança do meu gesto fez aumentar o pranto onde só ouvia: obrigado por meu ouvires. Não era de todo uma obrigação, afinal, para que é que eu servia? Só para rir, jogar a bola e mal e para fazer umas asneiras em conjunto? Claro que não. Adormeceu rápido Pedro, até porque o choro cansou-lhe a alma. Seria bonito dizer que ele adormeceu feliz com gesto, mas o mais correto era dizer eu ele adormeceu na segurança da minha presença e na certeza que amanhã era o dia em que ele continuava a lutar por ela.

António era mais como eu nestas coisas. Era mais fácil de se chegar e de ouvir. Ele é a pessoa que hoje mais me ouviu e que sempre esteve presente mesmo quando estávamos fisicamente longe para que a conversa fosse feita cara na cara. Logicamente, e como passávamos muito tempo juntos, era normal que já existiam reações, ações e expressões que os dois já sabiam ler o que facilitava. A paixão era sempre motivo de grande para fazer um coração chorar e isso não passava ao lado de António. Apesar de calma e pacífica, a relação de António e Maria sofria como qualquer uma que fosse à distância: a falta de presença. Mesmo colocado ao telefone de forma constante, António sofrera como outros e quando chegava a fase dos testes era o pior momento para eles. Mesmo assim, poder falar destas angústias não era fácil, porque queríamos fazer no segredo sem que ninguém ouvisse e António não era diferente. Por isso é que muitas vezes, conversar por mensagem facilitava a comunicação. Não foram muitos os momentos em que António chorara, mas foram muitos os momentos em que ele partilhava todos os episódios tristes e alegres daquela sua história.

Por estes motivos, pensei sempre que nós fossemos aquele tipo de amigos que o tempo não iria meter mão, mas penso que me enganei. Penso sempre: será que existe alguma coisa que podia ter feito de diferente? O que fizemos nós de errado para que cada um segue-se a sua vida, ignorando estes pequenos detalhes?

Não há nada de errado que tenha feito, para além de ter vivido.

Apenas, crescemos acho.

0 comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.