Existem cartas que ficaram perdidas no tempo, guardadas para serem enviadas mas onde a cobardia do momento impediu que fossem enviadas. Deixámos a tinta escorrer nas linhas, deixando que o coração tome conta da mão onde o coração cuspe tudo que acumulou: lágrimas, sorrisos, momentos, abraços. Hoje vou expondo cada momento na esperança que ela chegue, não ao verdadeiro destinatário, mas ao vosso coração.

21/01/2021

Capitulo 4 - Existe um lugar de paz




O inevitável acordar da manhã obriga-me a analisar os recantos do meu pequeno quarto com o meu olhar ensonado e cheio de uma pouca vontade típica a minha
. As manhas são sempre difíceis e por elas o serem deixo-me acordar sentado mesmo com o desconforto da parede que me sustenta este ensonado ser.

Neste meu olhar turvado, sorrio para o meu pladur que mais se parece com um altar de contemplação. As velas foram colocadas de uma forma estratégica para eu sempre lembrar do meu passado. Nem só o Pedro e António estão presentes mas também toda a feliz lembrança que um dia foi inocente e sempre rodeado de quem só pedia uma coisa de mim: felicidade. Um dia isto desapareceu, ficou a lembrança eterna de uma história feliz e carregada de uma jornada de descobertas. Descobertas dos sentimentos, do que somos e do que queremos. A inocência não deixou descobrir mais do que a superfície de uma vida adolescente moldada para estudar e brincar. Não queríamos se não mais do que ficar longe dos nossos chatos pais que impingiam coisas, imponham regras e que estabeleciam limites. Queríamos quebrar limites sem nunca aprofundar esses limite e isso faz toda a composição de palavra inocência.

Mas quando somos daquela idade tenra nada mais queremos. E um dia essa idade aumentou e com ela aumentou a ambição de ter mais e os sonhos que eram parvos tornaram-se sérios. Um telemóvel já não chegava para preencher e entreter, havia algo mais que faltava aprofundar e que faltava saber. Ainda nem sabia bem como. A responsabilidade tomou outro patamar, mais sério e ponderado. Chegou o tempo de tomar decisões sobre o meu eu, sobre o meu futuro, como me vejo e o que quero.

O quadro de Jesus ao lado de Pedro e António não era mais que a lembrança de saber que me encontrei e do constante lembrete que devo tudo a Ele e a eles. 

Dizem que a adolescência é dura. Não vou embelezar e dizer que faz parte da vida como se fosse algo que todos fossem passar. Temos todos os percursos diferentes na vida e o meu percurso da adolescência foi de encontrar o meu ser, de ver-me por dentro e de perceber que toda a minha felicidade não passava de uma falácia feita para tornar suportável todo o ensino básico. Todo o meu sorriso dado durante todo o meu percurso no ensino básico estava carregado de uma falsa alegria que mesclava a minha tristeza profunda para não ser interrogado constantemente sobre ela. O meu ser pintou o quadro mais belo com todas as minhas lágrimas vertidas no meu recanto longe dos olhares dos outros e passeou-se diariamente naquela escola. A minha alma chorava e pedia para que acabasse mais um dia, para que eu pudesse-me refugiar no meu recanto. Refugiava-me na coisa que mais gostava na minha vida: computadores e tudo que andava volta.

O meu gosto por informática foi o meu caminho e o meu ponto de viragem para uma nova jornada que eu sabia que ia ser difícil.

Desamarrei-me de todas as memórias, rotinas e medos e segui para um novo ambiente escolar para me debruçar no que realmente fazia sentido: eu e no que o meu eu gosta. A mudança não era fácil e o medo de o ‘bullying’ pairava neste novo centro escolar, mesmo sabendo que este novo sitio dava-me a oportunidade de mostrar outro eu aquele falso quadro alegre já não pintava uma pessoa feliz, mas agora refazia num sentimento defensivo com medo de ser opresso, como já acontecera.

Esta escola diferia, não só porque era outro, mas porque havia um sentimento de que o aluno fazia o seu percurso. Acredito que pelo facto de ser uma escola católica e com bases na Igreja fazia com que as pessoas pudessem ser elas, sem julgamentos, sem preceitos nem ideias pré-concebidas. Mas, ainda assim, não deixávamos de ser uns putos estúpidos e sem maturidade para admitir que não temos maturidade.

Lembro-me de no primeiro dia explicaram-me que esta escola profissional para além de ser católica era uma escola feita e gerida por padres jesuítas.

- O que é isso, padre Jesuíta? - perguntei eu.

A pergunta era tão inusitada que se riram. 

- É uma ordem religiosa como qualquer outra, com muita estória e baseados na espiritualidade. - respondeu o homem bem-vestido a sorrir, mas não de uma forma julgadora nem opressora, mas de uma forma feliz e livre de julgamento. - Eu sou padre jesuíta e não difiro de vocês. Tive a minha adolescência, tive as minhas paixões, mas acabei por perceber que sou apaixonado por Ele e segui esse caminho. 

As palavras do Padre Pedro ecoaram-me na cabeça e deixaram a minha alma inquieta. " Como uma pessoa que namora, vai para Padre?". A minha inquietação fez despertar a minha curiosidade e isso foi um ponto de viragem para toda a vida. Com o tempo que passava naqueles corredores, Pedro sorria para mim como se soubesse ter perguntas, como se a minha curiosidade ganhasse forma de falar por mim. Talvez o meu olhar não deixava calar as perguntas que a minha mente tinha.

Padre Pedro e eu tornámo-nos amigos e era inevitável que assim não fosse. De uma alegria e simplicidade faz retocar-me as ideias feitas que tinha sobre padres e mostrou-me que para lá de uma vida de oração e devoção existe um ser próprio, com defeitos e virtudes, que tem os seus desejos, os seus passatempos e os seus "pecados". 

- Pedro, o que é esta imagem que tens aqui na sala? 

- É o Cristo do Sorriso, uma imagem importante para mim e para todos os Jesuítas. É com ela que rezámos, que discernimos e que nos acompanha nesta jornada pelo mundo.

Confesso que aquela imagem não me sai do olhar, não por se hedionda, mas por ser impactante. Não era uma imagem de Cristo convencional, com aqueles prefeitos pesados e sempre representada de forma a dar um peso de tristeza, dor. Era uma imagem alegre, de um Cristo que sorria, onde emanava paz e serenidade, invés de uma inquietação e instabilidade. Quando imaginamos uma imagem de Jesus imaginamos uma cruz onde está um ser cheio dor, que morreu no sofrimento e na inquietude, onde suplicava que terminasse. Esta imagem era a contrária. Onde havia tristeza reapareceu a alegria, onde havia dor revelou-se a calma, onde reinava a dor converteu-se na paz.

Hoje essa imagem permanece ao lado deles (Pedro e António) símbolo de paz, mas a cima de tudo, símbolo de transformação de um novo eu, de um ser que deixou o medo e para começar a caminhar na sua jornada para uma paz para consigo mesmo. Somos o que somos pelo caminho e eu sabia que o meu caminho mal começara a ser feito. 

Mas agora sabia, que esse meu caminho já não ia ser feito sozinho. 

0 comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.